Quando tomou posse como o primeiro presidente de esquerda da Colômbia, em 7 de agosto de 2022, o ex-guerrilheiro Gustavo Petro falou em uma "segunda oportunidade" para todos os colombianos e colombianas. "É a hora da mudança", avisou, antes de pedir que os países da América Latina deixassem de lado as diferenças ideológicas. Passados 262 dias do histórico discurso, Petro foi forçado a mudar por completo o curso de seu governo, motivado pela implosão da coalizão que o levou ao poder. Ele trocou quase metade de seu gabinete.
Na tarde de ontem, o chefe de Estado colombiano anunciou a substituição de sete de seus 18 ministros, inclusive o titular da Fazenda, o acadêmico liberal José Antonio Ocampo, que dará lugar a Ricardo Bonilla. "O programa de governo estabeleceu um roteiro para levar adiante a mudança pela qual votaram milhões de colombianos e colombianas. (...) Hoje, se constrói um novo gabinete, que ajudará a consolidar o programa de governo, que será a base de um acordo nacional franco e sincero", declarou Petro.
No comunicado à imprensa, o presidente lamentou que seu gabinete foi rechaçado por lideranças políticas tradicionais, assim como sua aposta por diálogo e pacto. "Decidimos configurar um governo para redobrar nossa agenda de transformação social a serviço da grande maioria dos cidadãos e dos povos da Colômbia", declarou.
Em menos de um ano de gestão, Petro enfrenta dificuldades para aprovar projetos de lei no Congresso. "O governo de emergência tem que ser instalado já, pois o Congresso não foi capaz de aprovar artigos simples, muito pacíficos, que teriam permitido uma melhor democratização da terra, por ordem constitucional e por ordem de um acordo de paz", afirmou Petro, na terça-feira, durante pronunciamento na cidade de Zarzal, no Valle del Cauca. Na ocasião, ele pediu a todos os ministros a renúncia coletiva.
Cientista política da Universidad Externado de Colombia (em Bogotá), Magda Catalina Jiménez Jiménez afirmou ao Correio que a decisão de Petro decorre da impossibilidade de fazer as reformas pretendidas pela Casa de Nariño, sede do Executivo. "Há duas lógicas conflitantes no governo. Uma provém dos movimentos sociais e dos pactos históricos entre as coalizões, com decisões mais horizontalizadas. A outra, adotada pelo Congresso, que precisa de articulação com outras instâncias políticas e de elementos de temporalidade para pensar e negociar os temas. Isso impossibilitou a rápida tramitação defendida por Petro", explicou.
Andrés Felipe Ortega Gómez, professor de ciência política da Pontifícia Universidad Javeriana e da Universidad El Bosque (em Bogotá), lembrou que o governo apresentou ao Congresso um conjunto de reformas muito ambicioso. Entre elas, reformas de proteção social, trabalhista, de aposentadoria e da saúde — essa última para fazer uma mudança no modelo um pouco público e privado. "Petro é um presidente que sente que as reformas não avançam com a velocidade desejada. A discussão no Congresso dilata muito mais as reformas esperadas. O governo tem a necessidade de mostrar resultados muito mais rápidos. Ele precisa de ministros mais comprometidos com seu projeto político", disse ao Correio.
De acordo com Gómez, Petro se sustenta por uma coalizão. "Ela não funciona porque as reformas não avançam, particularmente a da saúde, que desgasta o governo e causa problemas com legendas tradicionais, como o Partido Liberal e o Partido Conservador. Ambos avisaram que não autorizarão a reforma", afirmou o professor. "O governo não tem conseguido cumprir com as enormes expectativas e precisava mudar, pois é isso o que exige a sociedade colombiana."
Por sua vez, Alejandro Bohórquez-Keeney, professor de governo na Universidad Externado de Colombia (em Bogotá), avaliou que, com a troca de parte do gabinete, Petro aproveitou para desfazer-se de ministros afiliados a outros partidos. "A estratégia dele é ter ministros mais afeitos ao seu projeto e a ele próprio, assessores que não o questionem tanto", comentou ao Correio. Segundo Bohórquez, Petro chegou ao poder escorado em uma aliança incômoda. "O presidente é uma pessoa muito doutrinária e narcisista. Ele acredita que seus projetos são infalíveis, apesar de ter sido eleito sem maioria absoluta. Sua capacidade de governabilidade deverá diminuir, e não acredito que ele faça concessões nem negocie com outros partidos."
Fonte: correiobraziliense
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