08 de Março de 2026

'Investidores estão mais seletivos', diz CEO sobre cenário de startups


Lisboa — Maior evento de tecnologia do mundo, a Web Summit fez questão de ostentar os números da edição deste ano, que contou com o recorde de mais de 70 mil participantes. Quem acompanhou os quatro dias do evento, no entanto, pode perceber que a euforia disseminada pelos organizadores não era a mesma entre os expositores e os visitantes que transitaram pelos cinco pavilhões gigantes instalados às margens do rio Tejo. Semanas antes de a feira abrir as portas, seu fundador, Paddy Cosgrave, foi obrigado a se demitir, depois de classificar os ataques de Israel à Faixa de Gaza como crimes de guerra. Grandes empresas de tecnologia, como Google e Meta, cancelaram presença no encontro. Mas, realmente, o que mais pesou para o clima nem tão festivo foi o freio de arrumação no mercado de startups. Como bem definiram os participantes, a festa do dinheiro fácil acabou.

“Os investidores estão muito mais seletivos”, diz Cristiano Oliveira, CEO da startup TQI, que desenvolve soluções para empresas impulsionarem seus negócios. Ele conta que, com o longo ciclo de juros negativos e, mais recentemente, a pandemia do novo coronavírus, os fundos de investimentos se sentiram confortáveis para despejar fortunas em projetos que se apresentavam como inovadores. Como o dinheiro era farto e barato, não havia muita preocupação com os resultados. Era grande a complacência. Com o fim da pandemia e a rápida subida dos juros mundo afora por causa do surto inflacionário, os investidores perceberam que muitas startups não haviam passado de promessas. “Não só reduziram os aportes de recursos, como passaram a olhar para coisas mais palpáveis, como eficiência”, ressalta.

 

  • Cristiano Oliveira, CEO da startup TQI, na Web Summit de 2023
    Cristiano Oliveira, CEO da startup TQI, na Web Summit de 2023 Vicente Nunes/CB

Para Oliveira, um mercado mais seletivo não significa, contudo, o fim do interesse do capital pelo mercado de startups. “Já vimos esse filme antes. O mercado de tecnologia é cíclico, de altos e baixos. Agora, o que os investidores querem são projetos sólidos, empresas saudáveis, rentabilidade”, afirma. “Essa maior seletividade é muito boa. O que houve foi uma peneirada para ver quais empresas paravam em pé”, complementa Alberto Levy, CEO da Poly Cashback. No entender dele, os bilhões de dólares perdidos com a falência de vários negócios deixaram os donos do dinheiro mais arredios. “Antes desse rearranjo do mercado, os investimentos em startups eram decididos em, no máximo, dois meses. Agora, são meses e meses de negociação, com os possíveis apoiadores olhando todos os números e projeções.”

Sócia e diretora Comercial da r2u, Valéria Carrete conta que um dos sinais mais evidentes da puxada no freio de mão dos investimentos em startups foi o rateio de ingressos da Web Summit entre os donos de empesas. Ao fazer as inscrições para a feira, os participantes têm direito a uma quantidade específica de entradas para o seu time. “O que eu vi nos grupos de conversas que participo foi muita gente vendendo parte dos ingressos para fazer caixa e bancar a viagem para Lisboa. Em outros tempos, de dinheiro sobrando, ninguém faria isso”, relata. “Tudo isso é resultado da crise que se abateu sobre o mercado. Quem não quebrou, aterrissou e passou a focar mais em resultados sustentáveis, não em promessas”, emenda.

Na opinião de Carrete, os investidores não estão mais dispostos a distribuir dinheiro porque é bonito apoiar startups. “Acabou a festa”, enfatiza. Ela diz que, com a crise, os investidores perceberam que as empresas podiam operar normalmente com metade de pessoal, sem nenhum transtorno. “Como o dinheiro era fácil, as startups montavam times gigantescos, com custos elevadíssimos. Com a razão prevalecendo, as mesmas empresas funcionam mais enxutas e dão bons resultados. É isso que prevalecerá daqui por diante”, acredita ela, que vê futuro, sobretudo, nos negócios em que a inteligência artificial (IA) fará a diferença. Na r2u, essa ferramenta está sendo oferecida para que micro, pequenas e médias empresas possam alavancar as vendas por meio das redes sociais.

Oliveira, da TQI, afirma que as startups que não se renderem à inteligência artificial enfrentarão períodos turbulentos. “Estamos falando de uma ferramenta tão essencial quanto a energia elétrica. No nosso caso, utilizamos a inteligência artificial com dois propósitos: eficiência operacional, a fim de acelerar o ciclo de desenvolvimento de um produto, e busca por soluções para os clientes”, explica. A grande preocupação do setor em relação à essa ferramenta tem a ver com regulamentação. O Brasil está dando passos importantes nessa direção. Há consenso de que é preciso impor limites. “A tecnologia não espera a lei, é a lei que tem de correr atrás da tecnologia”, define Carrete.

Assédio a mulheres dispara no mundo da tecnologia

Maioria da população mundial, as mulheres ainda enfrentam enormes barreiras para galgarem postos de destaques no setor de tecnologia e, pior, viram o sexismo e o assédio aumentarem no último ano. Pesquisa realizada pela Web Summit aponta que quase dobrou o número daquelas que não veem as startups tomando as medidas adequadas para combater a desigualdade de gênero nos ambientes de trabalho. Essa posição foi endossada por quase metade (47%) das entrevistadas contra 26% do levantamento de 2022. Mais: 53,6% foram assediadas no emprego, ante 49,5% do relatório anterior.
Para 77,2% das mulheres que atuam na área de tecnologia, elas precisam trabalhar mais do que os homens para provar que são capazes de exercer as funções para as quais foram designadas. Mesmo com esse ambiente hostil, 76,1% se consideram empoderadas o suficiente para alcançar ou manter uma posição de liderança. A pesquisa mostra, ainda, que menos de um terço das startups foi fundada por mulheres e que 41,8% das entrevistadas têm de escolher entre a carreira e a família. “Esses números não me surpreendem”, afirma Valéria Carrete, sócia e diretora da startup r2u.

Ela ressalta que o preconceito no mundo da tecnologia ainda é grande, não apenas contra as mulheres, mas também contra os negros. “A cara do startapeiro é masculina e branca”, diz. O mercado é tão desigual, ressalta, que, neste momento de crise enfrentada pelas empresas, com cortes maciços nos investimentos, as mulheres foram as principais afetadas pelo enxugamento das equipes. “Nas demissões, as startups priorizaram as mulheres, isso é real”, assinala. Diante dessa realidade, Carrete acredita que é preciso fomentar o empreendedorismo feminino tecnológico. “As mulheres criam uma série de negócios, mas acham que são incapazes de progredir na área da tecnologia”, frisa.

Pelos dados da Web Summit, que, pela primeira vez, é comandada por uma mulher, Katherine Maher, o total de participantes do sexo feminino no evento deste ano ficou em 43%, praticamente estável em relação a 2022 (42%). “Esse quadro reforça o grande caminho que ainda precisa ser percorrido em relação à igualdade de gênero”, destaca Cleo Barral, desenvolvedora de negócios no setor de tecnologia. Ela, que trabalhou por cinco anos na Irlanda, onde participou de um programa de inclusão de mulheres nesse segmento, acredita que, quando as startups ou empresas de outros ramos optam pela diversidade, as chances de sucesso dos negócios se tornam muito maiores.

Para Barral, as mulheres precisam se colocarem mais no mercado, fundando as próprias startups, pois, do ponto de vista de preparo, são mais capacitadas que muitos homens. “Historicamente, a formação das mulheres é melhor. Elas têm mais anos de estudos e priorizam a educação. E temos de lembrar: inovação combina com diversidade”, frisa. Ela recomenda que as universidades se engajem mais no enfrentamento das barreiras que impedem a presença de mais mulheres na tecnologia. “Não posso aceitar que, num jantar de trabalho com 10 pessoas, apenas três sejam mulheres, como ocorreu comigo em Lisboa.”
Fundadora da Associação Empresarial dos Imigrantes em Portugal e da Associação Lusofonia, Cultura e Cidadania, Nilzete Pacheco afirma que as empresas, no geral, se recusam a enfrentar de verdade a desigualdade de gêneros. Esse problema, complementa ela, não se resume ao setor de tecnologia. “Há muita resistência na contratação de mulheres que têm filhos ou que acabaram de se casar e vão ter filhos”, afirma. “Esse tipo de postura tem de acabar, assim como a sobrecarga que recai sobre as mulheres, que têm duas, três jornadas diárias por causa dos cuidados com os filhos e com a casa”, complementa.

As startups de Brasília apostam na saúde

Médico há 20 anos, Thiago Oliveira decidiu sair detrás da mesa de atendimento aos pacientes para enfrentar um problema crônico na saúde: o diagnóstico tardio de doenças cardiovasculares e oncológicas, que, na maioria das vezes, leva à morte. Em 2020, ele fundou a startup Arvorah, com sede em Brasília, em que a tecnologia é usada para salvar vidas. “Criamos um sistema que foca no cuidado das pessoas, ou seja, na atenção primária”, explica ele, que participou da edição deste ano da Web Summit.

Pelo modelo desenvolvido por Oliveira, os dados dos pacientes são cruzados de forma que se possa prevenir uma série de enfermidades. A tecnologia permite o tratamento mais adequado, garantindo uma qualidade de vida melhor às pessoas. “Durante os últimos três anos, acompanhamos a jornada de pacientes com câncer, além de lidar com a saúde mental e nutricional. E, muitas vezes, percebemos que a doença já estava avançada e os recursos para o tratamento tinham se tornado escassos”, afirma.

Na avaliação do CEO da Arvorah, com o foco na atenção primária e o uso da tecnologia, os custos com os tratamentos de câncer e de doenças cardiovasculares podem ser reduzidos em até 88%, favorecendo os sistemas de saúde público e privado. “Quanto mais precoces forem os diagnósticos, menores serão os gastos com saúde. Não dizemos o que as pessoas têm, mas oferecemos todos os dados para que os profissionais especializados possam utilizá-los para oferecer o melhor tratamento possível ao menor custo”, ressalta. Pela inovação, a startup recebeu, neste ano, um prêmio do Sindicato da Indústria da Informação do Distrito Federal.

Sócio fundador da Science Play, startup com sede em Brasília que oferece educação profissional para médicos e nutricionistas, Brunno Falcão conta que a empresa está abrindo 10% do capital para a entrada de investidores. “Temos 13 anos de atuação e esta é a primeira vez que vamos buscar sócios”, diz. Ele reconhece que o momento não é dos melhores para as startups, por causa do freio de arrumação do mercado, mas acredita que tem um ótimo produto para oferecer. “Temos um negócio sólido, que está estabelecido, é rentável e tem boas perspectivas de crescimento”, acrescenta.

De Brasília, a Science Play atende 25 mil clientes por ano em 95 mercados pelo mundo. A empresa representa, no Brasil, o American College of Sports Medicine, o que lhe permite oferecer cursos em português e certificação sem que os alunos tenham de se descolar para os Estados Unidos. Além disso, a startup é representante no país do evento científico ligado ao ator Arnold Schwarzenegger. São 10 anos de parceria. “No ano passado, nossos negócios cresceram 40%. Estamos em um momento muito bom como escola de formação para profissionais da área de saúde”, reforça Falcão.

A meta é sempre manter médicos e nutricionistas o mais bem informados possível, com artigos publicados nas principais revistas científicas do mundo, para que possam aplicar o conhecimento em suas áreas de atuação. “Temos a ciência como base, humanizada”, afirma. Ele antevê, porém, grandes transformações no mercado por causa do avanço da tecnologia, em especial, da inteligência artificial. “Cada vez mais, as pessoas terão de combinar educação de base com os avanços tecnológicos e o conhecimento das plataformas”, enfatiza.

O Brasil deve se tornar um dos principais mercados de atuação da Poly Cashback, acredita do CEO e fundador da startup, Alberto Levy, que está baseado em Madri, na Espanha. A aposta se baseia no forte interesse dos brasileiros por tecnologia e pelo elevado engajamento em programas de recompensas, o cashback. No caso da empresa, a devolução de parte dos valores gastos pelos consumidores por meio da sua plataforma é feita em criptomoedas. “Na Europa, ainda não se tem muito noção do que é o cashback, já, no Brasil, esse conceito está permeado na sociedade”, diz.

Levy conta que a startup já atua em 20 países. “O nosso objetivo é permitir que as pessoas entrem para o mercado de ativos digitais sem fazer investimentos. Sabemos que esse segmento é complexo, cheio de fraudes, mas é o futuro das finanças”, explica. Para desmitificar esse tema, a Poly CashBack agregou em sua plataforma quase 5 mil lojas no mundo, sendo mais de 1 mil no Brasil. A cada operação, o comprador ganha de volta, no ativo digital que escolher, um percentual do valor gasto.

Recentemente, o sistema agregou um browser que permite a navegação em bitcoins, o que também resulta em recompensas. O saldo acumulado em todas as operações ao longo do tempo pode ser transferido para uma conta bancária, convertido em reais, ser doado ou utilizado para a troca por produtos. “Também estamos num processo em que os usuários poderão consumir os produtos que desejam e pagar com criptomoedas. Esse modelo está em implantação no México, onde dois restaurantes já aceitam”, afirma Levy.

As perspectivas para o negócio são tão boas, que a startup abriu uma nova rodada de captação de recursos para reforçar o capital. Desta vez, a meta é agregar 1 milhão de euros (R$ 5,5 milhões) às operações, dos quais 250 mil euros (R$ 1,4 milhão) já entraram no caixa. “Lidamos com criptomoedas, mas a nossa empresa é muito regulada, com liquidez absoluta em todas as recompensas”, ressalta. Ele conta, ainda, que está em fase de negociação com um time brasileiro de futebol para o lançamento de um tolken que será distribuído por meio da plataforma. Há, também, uma carta de intenção com a Telefônica para um lançamento em 2024.

A dentista portuguesa Inês Santos, com 20 anos de profissão, também se voltou com tudo para o Brasil. CEO e fundadora da Dental Vortex, ela quer atrair para a plataforma da startup os profissionais da odontologia que estejam dispostos a compartilhar conhecimento, experiência e trabalhos, seja por meio de depoimentos, seja de fotos e de vídeos. O programa agrega um sistema de votação dos melhores casos. Assim, a cada mês, o mais votado pelos participantes recebe uma quantia em dinheiro, que pode chegar a 15 mil euros (R$ 82,5 mil).

“Temos uma plataforma em que todos ganham, tanto compartilhando informações, quanto fazendo network e difundindo o trabalho dos dentistas”, afirma Santos. Ela destaca que o interesse pela entrada de profissionais brasileiros na Dental Vortex decorre de dois importantes fatores. Primeiro, a qualidade dos dentistas, que estão entre os melhores do mundo. Segundo, o Brasil é o maior mercado de odontologia do planeta, com margens de lucro entre 25% e 45%.

Com base em pesquisas, a CEO da Dental Vortex assegura que, no Brasil, a odontologia é a segunda profissão mais bem remunerada, atrás apenas da medicina. Em Portugal, por sua vez, mais da metade dos profissionais recebem menos de 1 mil euros por mês (R$ 5,5 mil). “No Brasil, estamos falando de um mercado que vai movimentar, somente neste ano, 357 bilhões de dólares (R$ 1,7 trilhão). Portanto, faz todo sentido a nossa expansão para o mercado brasileiro, que vai agregar muito à nossa plataforma”, reforça.

Fonte: correiobraziliense

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