22 de Fevereiro de 2025

Tarifaço de Donald Trump mexe com os mercados globais


Após registrar um breve período de valorização durante a manhã, o dólar comercial voltou a cair na tarde de ontem e fechou em queda de 0,35%, cotado a R$ 5,816, no primeiro pregão de fevereiro, em meio às idas e vindas das ameaças de tarifaço do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.

Com isso, chega a 11º o número de pregões seguidos em que a moeda norte-americana recuou frente ao real. Em janeiro, a divisa brasileira foi a 2ª moeda que mais se valorizou ante o dólar no mundo, atrás apenas do rublo russo.

O movimento de ontem foi na direção contrária à média de outras principais divisas globais, visto que o Índice DXY, que realiza essa medição, encerrou o dia em alta de 0,54%. Na avaliação de especialistas do mercado financeiro, a moeda brasileira foi beneficiada com o acordo entre o presidente Donald Trump e a presidente do México, Claudia Sheinbaum, para adiar a aplicação da taxa de 25% em produtos mexicanos importados pelos EUA.

O acordo foi anunciado por Sheinbaum em sua conta na rede social X, antigo Twitter. A presidente disse que teve uma "boa conversa" com Trump e concordou em reforçar a fronteira mexicana com os Estados Unidos. Por outro lado, o republicano escreveu em sua própria rede, a Truth Social, que o diálogo com Sheinbaum foi "muito amigável" e que se comprometeu a trabalhar para evitar o tráfico de armas de alto calibre para o país vizinho, uma das condições elencadas pelo México para concretizar o entendimento.

Apesar da aparente distensão por parte dos EUA, o Brasil e outros países emergentes seguem diante de um cenário indefinido para os próximos meses, sem poderem descartar possíveis taxações elevadas por parte da maior economia do mundo. Na visão do sócio e fundador da BMJ Consultores Associados, Welber Barral, caso as possíveis retaliações de outras grandes economias, como a China e a União Europeia, demonstrem sucesso no cenário global, o Brasil pode ser beneficiado, de certa maneira, com o aumento das exportações de produtos que o país compete diretamente com os EUA.

"Dependendo das retaliações que sejam adotadas, você pode ter mais estabilidade. Você pode ter, eventualmente, oportunidades para países como o Brasil, porque a gente concorre em muitos produtos para os Estados Unidos", disse Barral. "Mas ninguém sabe por quanto tempo essas medidas vão persistir. Então, também, as empresas brasileiras exportadoras não vão fazer grandes esforços sem saber se isso vai continuar daqui a seis meses", acrescentou.

O especialista da BMJ também considerou que os Estados Unidos podem sair bastante prejudicados caso optem por uma política de viés altamente protecionista, uma vez que a restrição de importações de determinados produtos, como eletrodomésticos, no caso da China, ou do abacate, no exemplo do México, podem levar a um aumento dos preços no ambiente interno, prejudicados os consumidores do país.

No domingo, a China anunciou que apresentará uma medida judicial contra os EUA na Organização Mundial do Comércio (OMC), além de adotar "medidas correspondentes para salvaguardar firmemente seus direitos e interesses", destacou, em nota, o Ministério do Comércio chinês. Apesar desta sinalização, Barral vê uma OMC com pouca credibilidade para reforçar um movimento contrário ao de Trump no comércio internacional. "Os Estados Unidos estão bloqueando a indicação de juízes para o órgão de apelação, e isso faz com que ocorra um enfraquecimento da OMC. Mesmo assim, a instituição poderia entrar como mediadora nesse momento ou poderia ter um contencioso entre China e EUA. Só que isso levaria anos. Não é algo para se decidir de um dia para o outro", ressaltou.

Professor de economia internacional da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR), Másimo Della Justina destacou que uma possível taxação de produtos brasileiros nos EUA não seria economicamente interessante para os norte-americanos, já que, como ele mesmo lembrou, a balança comercial entre os dois países é favorável para os norte-americanos.

"O Brasil compra petróleo bruto deles, compra gás natural, máquinas e motores, máquinas elétricas que alimentam a nossa produção industrial, além de medicamentos, aeronaves, polímeros e outras coisas", disse o professor. "Então, de imediato, eu não esperaria, primeiro, nem uma tarifa mais ambiciosa contra o Brasil e, segundo, nenhum efeito adverso que seja por tabela, dado às imposições que os Estados Unidos impuseram aos outros e a retaliação que os outros fizeram para nós. Deixaria tudo como está", acrescentou.

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Ontem, o dia foi de queda quase generalizada nas bolsas mundo afora, com os principais índices norte-americanos fechando no vermelho. Em Nova York, o Dow Jones caiu 0,28%; o S&P 500 recuou 0,76%, e o Nasdaq, teve queda de 1,20%.

Na Europa, as principais bolsas também registraram quedas devido ao temor das restrições impostas por Trump avançarem para o Velho Continente. O índice pan-europeu Stoxx 600, 0,95%, enquanto que o DAX, da Alemanha, e o FTSE 100, de Londres, fecharam o dia em quedas de 1,30% e de 1,03%, respectivamente. As bolsas asiáticas também tiveram um dia negativo. O Índice Nikkei, de Tóquio, recuou 2,66%; o Kospi, de Seul, caiu 2,52%; e o Taiex, de Taiwan, teve baixa de 3,53%.

ECO-Taxas EUA
ECO-Taxas EUA (foto: Valdo Virgo)

O analista da Ouro Preto Investimentos Bruno Komura acredita que o real deve se beneficiar ainda mais dessa distensão temporária dos EUA com outros países, enquanto perdurar. No curto prazo, o especialista acredita que a moeda brasileira deve permanecer em um patamar próximo a R$ 5,80 ou, até mesmo, chegar a R$ 5,70. Apesar disso, o dólar deve voltar a ganhar força assim que as medidas adotadas por Trump se tornarem mais concretas no âmbito internacional. "Além disso, quando a gente coloca em consideração todos os fatores locais, eu acho que não dá para se sustentar nesse patamar mais baixo e provavelmente o câmbio voltaria para R$ 6. Então, eu acredito que continue caindo, continue nessa toada de real ganhando força contra o dólar, mas eu acho que não se sustenta (a longo prazo)", disse.

Para o sócio da Vokin Investimentos Guilherme Macêdo, o movimento de queda do dólar ante o real desde o início do ano pode ser observado como uma reprecificação do mercado após uma valorização muito abrupta da moeda norte-americana em dezembro de 2024. Essa percepção ganhou força após o resultado da Dívida Bruta do Governo Geral (DBGG) ter ficado menor do que o esperado por parte dos agentes do mercado. "Isso também fez com que o sentimento mais pessimista de dezembro perdesse um pouco de força", destacou.

Apesar da valorização do real frente ao dólar, a Bolsa de Valores de São Paulo (B3) acompanhou as bolsas internacionais e encerrou o dia com leve queda de 0,13%, aos 125.970 pontos. As ações que mais contribuíram para esse movimento no primeiro dia da semana foram grandes exportadoras, como as Ambev, que caíram 4,77%, e as da WEG, com baixa de 2,40%.

 

Fonte: correiobraziliense

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