Em um cenário interno frágil e em meio às negociações sobre taxas com o governo dos Estados Unidos, o Japão renova 125 das 248 cadeiras da Câmara Alta. As pesquisas de intenções de voto indicam que a oposição ao primeiro-ministro Shigeru Ishiba, de 68 anos, será maioria, sob a liderança de Sohei Kamiya, de 47 anos. Chamado de "Trump japonês", ele adota discurso de extrema-direita e faz a defesa de medidas mais duras contra imigrantes. A posição atinge em cheio mais de 200 mil brasileiros — denominados dekasseguis — que vivem em cidades japonesas, segundo dados do Ministério das Relações Exteriores, o Itamaraty.
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Os primeiros resultados das eleições ao Senado no Japão apontam para um novo revés da coalizão do primeiro-ministro, que fragilizado, deve deixar o cargo. Ishiba está pressionado pelo crescimento da oposição, aumento da inflação e do populismo de direita anti-imigração. Há oito meses no governo, o político tem minoria no parlamento. A coalizão governista precisava conquistar 50 cadeiras para manter a maioria, mas a aliança entre o PLD e o partido aliado Komeito obteve apenas 41, segundo projeções da Nippon TV e da TBS.
Desde 1955, o Partido Liberal Democrata, de centro-direita, governa o Japão quase sem interrupções. Porém, um escândalo de financiamento envolvendo o PLD e a ameaça das tarifas de 25% impostas pelos Estados Unidos, previstas para entrar em vigor em 1º de agosto, caso não haja acordo com Washington, enfraqueceram a gestão de Ishiba. Para agravar a situação, a indústria automobilística, responsável por 8% dos empregos no país, enfrenta tarifas elevadas.
Em meio a esse cenário, Sohei Kamiya, o "Trump japonês", surge como o salvador do país. Com um discurso conservador e aproveitando a fragilidade do governo, o professor e ex-gerente de supermercado aproveita a lacuna e as expectativas pelo novo do eleitorado. Como slogan de campanha, o oposicionista passou a usar a expressão "Japoneses primeiro", atraindo a simpatia dos que resistem aos estrangeiros e às influências do norte-americano.
A mensagem de Kamiya agradou aos eleitores insatisfeitos com a gestão de Ishiba. À imprensa estrangeira, o líder da oposição disse ter se inspirado no "estilo político ousado" do presidente norte-americano. Desde então, ele ganhou o apelido que passou a exibir com orgulho. Segundo ele, após as eleições, deverá seguir o exemplo dos partidos populistas emergentes da Europa, construindo alianças com outros partidos pequenos, em vez de trabalhar com uma administração do LDP, que governou o Japão durante a maior parte da história do pós-guerra.
Nos últimos dias, pesquisas de opinião já apontavam para uma possível derrota do governo nas eleições para o Senado, em meio à insatisfação da população com o aumento dos preços, especialmente do arroz. "Ishiba pode ser obrigado a renunciar", afirmou Toru Yoshida, professor de ciência política da Universidade Doshisha. O Japão pode "entrar em uma dimensão desconhecida, com o governo em minoria tanto na câmara baixa quanto na alta — algo inédito desde a Segunda Guerra Mundial", alertou.
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