Assim como várias entidades do setor produtivo, o presidente do Sindicato da Micro e Pequena Indústria (Simpi), Joseph Couri, elogiou as medidas anunciadas pelo governo, nesta quarta-feira (13/8), no pacote de socorro às empresas exportadoras que estão sendo afetadas pelo tarifaço dos Estados Unidos. Entre elas, destaca-se uma linha de crédito de R$ 30 bilhões via bancos públicos.
“As medidas que o governo tomou são muito bem-vindas e necessárias. Uma parte das empresas vai conseguir se salvar com isso”, afirmou Couri, em entrevista ao Correio.
Sim. Essas medidas contra o Brasil não se sustentam economicamente. São decisões políticas e merecem reflexão. E, em uma democracia, os Três Poderes, Executivo, Legislativo e Judiciário, são independentes. E, portanto, pedir que o Executivo interfira no Judiciário é complicado. É extremamente complicado, e acho que isto coloca, se a se a negociação é esta, isso coloca uma inviabilidade a não ser abrir mão da soberania brasileira que eu acho que ninguém vai fazer isso. Os outros itens são todos negociáveis, se é terra rara, se é álcool, se é enfim, um produto que for, isso é negociável, mas não a vinculação na soberania nacional que não pode estar na mesa. Ninguém quer brigar, ninguém quer bater nos Estados Unidos, mas tem algumas coisas aí que eu acho importantes.
Como o senhor avalia a negociação do governo brasileiro com os EUA?
Eu não conheço ninguém mais ponderado e experiente do que o vice-presidente Geraldo Alckmin para essa negociação. Até o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, tem um discurso de equilíbrio de bom senso de negociação. O Itamaraty possui profissionais altamente experientes. Aquela própria comitiva de senadores que foi pros Estados Unidos tentar negociar, também foi importante. Toda essa movimentação só demonstra a vontade do Brasil em negociar, e a porta fechada dos Estados Unidos. Consequentemente, é questão de tempo, e vamos ver o desenrolar disso, que esse cenário vai mudar. É questão de tempo. Esse cenário não vai se manter com uma tarifa de 50% por muito tempo. Acho que ela será objeto de negociação, talvez não nesta semana, mas ela será objeto de negociação.
Por quê?
Porque o Brasil continua disposto a isso, a negociação. Agora, se tiver que retaliar, o que eu espero que não aconteça, o impacto será muito ruim para todo mundo. Uma guerra tarifária só tem perdedor. Mas a maturidade do Brasil em insistir na negociação eu acho um exemplo muito bom. Ele está está voltando os olhos para os pequenos negócios, não vamos esquecer que nos Estados Unidos, hoje, tem um movimento muito claro das pequenas empresas pressionando o governo americano que elas estão sendo prejudicadas.
Mas como o senhor avalia as declarações do governador de São Paulo, Tarcisio de Freitas (Republicanos), que vem criticando a forma de negociar que o Lula tem com os EUA, mas ele evita criticar o Eduardo Bolsonaro, que já admitiu que colocou o Brasil nessa situação?
Tarcísio é governador do Estado de São Paulo, portanto, ele tem que ser respeitado, assim como todos os governadores. Eles precisam ser respeitados nas suas posições. Mas o que existe é uma discussão política. Não é uma discussão econômica, porque, na discussão econômica, todos os estados do Sul e do Sudeste serão os mais prejudicados com o tarifaço. E, aqui, quero lembrar uma frase que eu respeito, o ex-deputado Ulysses Guimarães, que era respeitado pela extrema direita, pela extrema esquerda, por todo mundo. Ele dizia o seguinte: 'não se deve fazer nenhuma reunião se ela não estiver acertada nos bastidores'. Consequentemente, o para o presidente Lula ligar para o Trump ou o presidente norte-americano ligar para o presidente brasileiro tem todo um ritual. E precisa ser preparado antes de os dois conversarem. E, enquanto isso não acontecer, não haverá essa ligação na minha avaliação. Agora, o que o país está vendo é um cenário em que o Eduardo Bolsonaro, um deputado eleito pelo Brasil, que está no exterior trabalhando contra a indústria brasileira, contra o mercado brasileiro, contra o país. Desculpe, não merece o meu respeito. Ele (Eduardo) assumiu publicamente que estava trabalhando contra o país e que era para os EUA taxarem e prejudicarem as empresas, ou seja, era para prejudicar todo mundo. Desculpe, ele não merece meu respeito. E é uma coisa mais ou menos inédita na história do mundo, porque ele saiu da arena política e veio para uma arena de prejuízo do país pelo qual ele foi eleito. Não dá pra aceitar isso.
Aliás, há pesquisas, como a da Quaest, mostrando melhora na avaliação do governo Lula e piora na avaliação de bolsonaristas após as ameaças de Trump. Quer dizer que Eduardo Bolsonaro está ajudando o Lula nas eleições de 2026?
Isso é verdade. É um fato que as pesquisas estão demonstrando essa mudança. Mas acho que nós estamos muito longe ainda da eleição de outubro de 2026. Até lá, vai passar tanta água embaixo dessa ponte. Ainda não dá para saber o que vai acontecer. Mas esse é um cenário eleitoral também, eu não tenho dúvida. Agora, acreditar que o Judiciário vai se curvar a essa imposição internacional acho que é, no mínimo, temerário.
E quais as consequências desse tarifaço?
Trump vai passar um dia. O mandato dele vai acabar, mas o problema é a consequência de tudo isso. O grande lema dos Estados Unidos sempre foi previsibilidade, e segurança jurídica. E, com essas medidas contra o Brasil, Trump rasgou a previsibilidade e rasgou o cenário de segurança jurídica, tanto que há um monte de escritórios de advocacia sendo consultados nos Estados Unidos. E, como não sabemos até quando vão durar essas tarifas, não há mais previsibilidade. Com isso, é preciso buscar outros cenários, como o cenário interno, compras governamentais, e por aí afora. E esse processo está em curso em todo mundo. Não é só o Brasil que tem problema de tarifas dos EUA. Trump está brigando com todo o mundo. Nesta semana, o presidente Lula conversou com o presidente Xi Jinping, da China. Ele conversou também com o presidente da Índia, Narendra Modi, e com o presidente da Rússia, Vladimir Putin. São os três outros pesos-pesados do Brics, e, agora, deve conversar com o presidente da África do Sul. Não temos informações ainda, mas essa empurrada do Brasil para outras fontes de comércio, se houver esse apoio chinês, indiano e russo, eu acho que tem um problema bem mais grave para os Estados Unidos do que estão imaginando.
Temos dois tipos de impacto. Um impacto na exportação direta, abrange o universo inferior, de 5 mil empresas, dentro do universo de 11 mil empresas exportadoras. Agora, o mais dramático é aquela exportação indireta, onde ele vende um produto para uma média empresa ou para uma grande empresa que exporta o seu produto. Ainda não calculamos esse impacto. Mas eu tenho convicção de que o governo vai olhar para isso também.
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