Berlim, Alemanha — Crônicas, sistêmicas e associadas a alterações no sistema imunológico, as doenças inflamatórias intestinais (DIIs) impactam a qualidade de vida de 6,8 milhões de pessoas, sendo 212 mil delas, no Brasil. Apesar de debilitantes, duas das enfermidades mais comuns do grupo — doença de Crohn e a retocolite ulcerativa (RCU) — contam, agora, com tratamentos inovadores, que permitem o controle de sintomas, inflamações subjacentes e até remissão profunda. Um deles foi apresentado na Semana de Gastroenterologia da União Europeia, um dos principais eventos mundiais dedicados ao tema. Trata-se do guseclumabe, um anticorpo monoclonal que bloqueia a proteína interleucina-23 (IL-23) que, quando produzida em excesso, contribui para doenças autoimunes.
As DIIs afetam o sistema imunológico, que passa a atacar o próprio corpo, começando pelo intestino e podendo se expandir para as articulações, pele e outros órgãos. Nesse contexto, os inibidores de IL-23 têm alcançado alta chance de eficácia, com respostas mais rápidas e duradouras, em especial nos casos moderados a graves. Estudos recentes patrocinados e conduzidos pela farmacêutica Johnson & Johnson indicam que pacientes tratados com tremfya subcutâneo (nome comercial do guseclumabe) alcançaram resultados clinicamente significativos.
Novo oceano nasce no coração da África, revela estudo
Resistência a antibióticos: o colapso silencioso da medicina
Além da remissão profunda — quando não há sinais clínicos nem marcadores detectáveis no organismo —, foi constatada melhora da mucosa intestinal, evidências histológicas e endoscópicas de recuperação e baixo índice de efeitos colaterais, com perfil de segurança positivo. Estima-se que, com o inibidor de IL-23, os pacientes possam ficar, em média, dois anos sem apresentar sintomas fortes.
Se antes as terapias visavam apenas controlar os sintomas, hoje, com os medicamentos biológicos, o objetivo é atingir esse estágio remissivo, explica a pneumologista Tatiana Deschamps, diretora de assuntos médicos em imunologia da Johnson & Johnson Innovative Medicine para América Latina. "Isso significa que, em exames como endoscopia, colonoscopia, biópsia ou ultrassom, não há mais inflamação ativa, e o trato gastrointestinal parece normal. Esse é o objetivo atual dos tratamentos mais modernos", afirma a médica.
No Brasil, o guselcumabe foi aprovado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), em março, com opções de indução subcutânea e intravenosa para o tratamento de adultos com doença de Crohn com atividade moderada a grave. Desde abril, o medicamento está disponível para pacientes de planos de saúde. Para retocolite ulcerativa, também com atividade moderada a grave, o tremfya deve ser administrado inicialmente por via intravenosa, seguido por manutenção. Em 9 de outubro, a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) publicou a Consulta Pública (CP) 162 para avaliar a incorporação de novas tecnologias — incluindo o guselcumabe — para o tratamento de retocolite ulcerativa na lista de cobertura dos planos de saúde.
Segundo especialistas, os casos de DIIs têm aumentado de forma significativa entre a população da América Latina. Dados divulgados pela revista The Lancet Regional Health - America mostram que, em 2012, a prevalência de doença de Crohn era estimada em 12,61 pacientes a cada 100 mil habitantes no Brasil. Em 2020, o índice saltou para 33,68. Em relação à retocolite ulcerativa, a prevalência, também em 2012, era de 15,77 a cada 100 mil habitantes. Oito anos depois, mais que triplicou, chegando a 56,53.
"Muitos pesquisadores relacionam esse aumento à 'ocidentalização' dos hábitos e culturas. Já se observou, por exemplo, que migrantes da Ásia ou da América Latina que se mudam para os Estados Unidos passam a ter mais casos de Crohn e retocolite ulcerativa", aponta o gastroenterologista Fabián Juliao Baños, presidente da Organização Panamericana de Doença de Crohn e Retocolite Ulcerativa (Pancco). Entre os hábitos listados pelo médico estão o consumo de alimentos ultraprocessados e álcool, a diminuição de exercícios físicos e a falta de sono de qualidade, além do tabagismo e da poluição ambiental.
Segundo o gastroenterologista, há um componente genético que explica cerca de 15% a 20% dos casos, mas o restante — cerca de 80% — está ligado a fatores ambientais, como alimentação e mudanças na microbiota intestinal. "Observou-se que pessoas com predisposição genética que mantêm hábitos saudáveis reduzem o risco de desenvolver as doenças em até 50%", explica.
Baños afirma que é estimado que, na Europa, uma em cada 100 pessoas poderá ter uma dessas enfermidades até 2030. "Na América Latina, estamos em uma fase epidemiológica chamada de 'aceleração da incidência', na qual os casos estão aumentando cada vez mais", completa. De forma menos significativa, o maior acesso a exames também contribui para a elevação.
As DIIs costumam se manifestar entre 20 anos e 40 anos, mas também há casos em crianças e idosos. Estudos indicam que, quanto mais cedo as enfermidades se desenvolverem, mais graves tendem a ser os sintomas. "De forma geral, a incidência aumenta justamente em uma fase de intensas interações sociais, universidade e relacionamentos. Por isso, o impacto na vida dos pacientes é enorme", ressalta Tatiana Deschamps. Filhos de pais com a doença têm 5% de chance de desenvolvê-la.
* A repórter viajou a convite da Johnson & Johnson Innovative Medicine para América Latina
Utilizamos cookies próprios e de terceiros para o correto funcionamento e visualização do site pelo utilizador, bem como para a recolha de estatísticas sobre a sua utilização.