07 de Março de 2026

Educação emocional para meninos: por que é importante?


Ao longo do tempo, frases como "engole o choro" e "menino não chora" foram repetidas em lares e escolas, consolidando um padrão de masculinidade baseado na força, na autossuficiência e no bloqueio das emoções. Hoje, diante do fato de que homens correspondem a três em cada quatro mortes por suicídio no mundo, ganha força a reflexão sobre os efeitos dessa repressão emocional e sobre a urgência de transformar práticas educativas desde a infância.

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De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), as expectativas sociais em relação aos homens — de serem provedores de suas famílias; terem condutas de risco; serem sexualmente dominantes; evitarem discutir suas emoções ou procurar ajuda — estão contribuindo para maiores taxas de suicídio, homicídio, vícios e acidentes de trânsito, bem como para o surgimento de doenças crônicas não transmissíveis.

O relatório “Masculinidades e saúde na região das Américas”, produzido pela OMS, destaca que modos tradicionais de ser homem entendem as práticas de cuidado e de busca por ajuda como símbolos de fragilidade e fraqueza, o que induz os homens a procurarem menos os serviços de saúde.

Os homens ainda vivem 7 anos a menos que as mulheres. A OMS alerta que 1 a cada 5 homens nas Américas não chegará aos 50 anos de idade. Isso devido a comportamentos de risco à saúde relacionados diretamente com o exercício de modelos tradicionais de masculinidade. Além disso, dados ressaltam que, no Brasil, 12,6% por cada 100 mil homens em comparação com 5,4% por cada 100 mil mulheres, morrem devido ao suicídio.

Segundo especialistas, o tabu em torno da saúde mental masculina está enraizado em estereótipos históricos e culturais, e a infância é um momento crucial para transformar essa realidade. “Quando ensinamos meninos a silenciar suas emoções, estamos negando a eles uma parte fundamental da experiência humana. Isso pode gerar adultos emocionalmente bloqueados, com dificuldades de relacionamento e maior propensão a problemas como ansiedade, depressão e agressividade”, afirma a psicanalista Ana Tomazelli, presidente do Instituto de Pesquisa de Estudos do Feminino (Ipefem).

Diante desse cenário, escolas e organizações vêm adotando práticas voltadas à saúde emocional dos meninos. Entre as estratégias destacadas por Ana estão rodas de conversa sobre sentimentos, incentivo à leitura com protagonistas masculinos sensíveis, atividades expressivas acessíveis a todos e capacitação de educadores sobre masculinidades saudáveis.

“Ao implementar essas práticas, é possível observar meninos mais empáticos, com melhor capacidade de comunicação e relacionamentos mais ricos com colegas e familiares”, destaca a psicanalista.

Ela defende ainda que homens emocionalmente conscientes têm mais chances de se tornarem pais presentes, parceiros empáticos e líderes eficazes. “Estamos formando uma geração que pode quebrar ciclos de violência e construir relacionamentos mais saudáveis”, diz.

Entre as recomendações que podem ser aplicadas desde a infância estão: validar emoções sem distinção de gênero, oferecer modelos masculinos diversos, promover brincadeiras que incentivem empatia e cuidado e estar atento a comentários que limitem a expressão emocional.

A repressão emocional não se restringe à infância. No mercado de trabalho, muitos homens seguem relutantes em procurar ajuda. Pesquisa da GQ Brasil com o Instituto Ideia mostra que 80% dos homens nunca fizeram terapia, apesar de 74% relatarem ansiedade e 83% mencionarem estresse. Em fóruns online, não são raros os relatos que associam a busca por apoio psicológico à “fraqueza”.

Relatório da OMS aponta ainda que, nas Américas, os homens vivem 5,8 anos a menos que as mulheres e são mais afetados por doenças crônicas, acidentes, violência e suicídio — fatores muitas vezes ligados à construção da masculinidade tradicional.

Empresas que têm investido em programas voltados à saúde emocional masculina relatam impactos positivos. Grupos de escuta, palestras, treinamentos e ações de incentivo ao autocuidado têm melhorado o engajamento e o clima organizacional.

“Ao ensinar meninos a reconhecer, nomear e expressar seus sentimentos desde cedo, estamos ajudando a formar adultos mais resilientes, empáticos e mentalmente saudáveis. Isso se traduz em menos casos de depressão, menos famílias afetadas pelo silêncio e, num cenário mais amplo, menos mortes evitáveis por suicídio”, afirma Ana.

Para especialistas, a transformação depende de um esforço conjunto — de pais, educadores, lideranças e da sociedade como um todo. A psicanalista traz uma provocação: “A masculinidade do futuro pode, e deve, ser plural, sensível e integral. Criar meninos livres para serem inteiros é abrir caminho para homens livres para serem humanos”.

 

Fonte: correiobraziliense

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