07 de Março de 2026

Estados Unidos elevam o risco de proliferação nuclear


Depois de 33 anos de uma pausa, após a assinatura de uma moratória, a decisão do presidente Donald Trump de reiniciar os testes com armas nucleares coloca em perigo a não proliferação atômica, de acordo com especialistas consultados pelo Correio. A China disse esperar que os Estados Unidos respeitem "seriamente" suas obrigações sob o Tratado de Proibição Completa de Testes Nucleares (CTBT) e adotem "medidas concretas para preservar o sistema global de desarmamento e a não proliferação nuclear". A Rússia prometeu agir "de acordo" com as ações tomadas pelos EUA.

Em mensagem publicada na noite de quarta-feira (29/10), em sua plataforma Truth Social, Trump lembrou que os EUA têm mais armas nucleares do que qualquer outro país. "Por causa do tremendo poder destrutivo, odeio fazê-lo, mas não tive chance! A Rússia está em segundo lugar, e a China em um distante terceiro, mas estarão empatadas dentro de cinco anos. Devido aos programas de testes de outros países, instruí o Departamento de Guerra a iniciar os testes de nossas armas nucleares em igualdade de condições. Esse processo começará imediatamente!", escreveu.

Donald Trump cerra o punho ao desembarcar do Air Force One, na Base Aérea Andrews, em Maryland
Donald Trump cerra o punho ao desembarcar do Air Force One, na Base Aérea Andrews, em Maryland (foto: Andrew Caballero Reynolds/AFP)

O anúncio de Trump ocorreu um dia depois de o presidente russo, Vladimir Putin, ter divulgado um teste bem-sucedido com o Poseidon — um "drone submarino" compatível com cargas atômicas — e o Burevestnik, chamado de "torpedo do Juízo Final". "Nenhum outro dispositivo no mundo se compara a este em termos de velocidade e profundidade" de operação, explicou o líder do Kremlin. "Com relação aos testes do Poseidon e do Burevestnik, esperamos que o presidente Trump tenha sido informado corretamente. Isso não pode ser considerado um teste nuclear", comentou o porta-voz do Kremlin, Dmitri Peskov. "Se alguém violar a moratória (de 1992), a Rússia agirá de acordo", emendou.

Nesta quinta-feira (30), o vice-presidente, J.D. Vance, esclareceu que o país precisa realizar ensaios nucleares para assegurar o correto funcionamento de seu arsenal. "É uma parte importante da segurança americana garantir que esse arsenal nuclear que temos realmente funcione corretamente, e isso faz parte de um regime de testes", disse a jornalistas na Casa Branca. "A declaração do presidente fala por si mesma."

Xiaodon Liang, analista sobre Política de Armas Nucleares e Desarmamento da ONG Arms Control Association (Associação para o Controle de Armas), disse que a decisão de Trump de retomar os testes nucleares é uma "violação contraproducente de uma norma internacional que tem servido bem aos interesses dos EUA". "Não há necessidade técnica nem militar para os EUA testarem suas ogivas atômicas. Desde a moratória unilateral sobre os testes, Washington gastou bilhões de dólares no desenvolvimento de métodos sofisticados para garantir a segurança de seu arsenal sem a necessidade de testagem. Um retorno aos testes seria um golpe devastador ao regime de não proliferação e à segurança de todas as nações", advertiu.

Reação em cadeia

Para Liang, o fato de a China apelar aos EUA para que respeitem a proibição de testes sugere que Pequim está muito preocupada com os riscos à não proliferação e à estabilidade nuclear. O especialista acredita que Coreia do Norte, Índia e Paquistão, vizinhos da China, poderiam imitar os EUA e reativar os testes. "Medidas concretas que Washington e Pequim poderiam tomar agora incluem convidar a Rússia, bem como o Reino Unido e a França, a reafirmarem conjuntamente seus compromissos com a moratória de testes. Os Estados Unidos, a Rússia e a China também devem abordar suas preocupações mútuas sobre a atividade em antigos locais de testes por meio de consultas e visitas aos locais", observou.

Por sua vez, Sam Lair — pesquisador associado do Centro James Martin para Estudos de Não Proliferação (CNS, em Monterey, Califórnia) — afirmou que não ficou claro o que Trump quis dizer com a declaração. "O fato de a instrução ter sido dada ao secretário de Guerra (Pete Hegseth) e não ao secretário de Energia (Chris Wright) sugere que ela possa se referir a testes de veículos de lançamento de armas nucleares, como mísseis balísticos ou mísseis de cruzeiro, e não aos testes propriamente de ogivas atômicas. Isso porque o Departamento de Energia é o responsável pela supervisão dos testes nucleares", disse. O estudioso não descarta que o anúncio feito pela Rússia sobre os disparos dos mísseis 9M730 Burevestnik e Poseidon possam ter encorajado Trump a instruir o Departamento de Guerra.

De acordo com Lair, é possível que Rússia e China também retomem os testes. "Os chineses seriam os que mais teriam a ganhar com isso, se considerarmos o número relativamente limitado de testes realizados — 45, em comparação com os 1.054 dos EUA e os 715 da Rússia", avaliou. "Tanto a Rússia quanto a China têm mantido seus locais de testes ativos, provavelmente para garantir um certo grau de prontidão, caso os Estados Unidos escolham reativar os testes."

Locais de explosões nucleares ficaram marcados com crateras, no Deserto de Nevada
Locais de explosões nucleares ficaram marcados com crateras, no Deserto de Nevada (foto: Wikipedia)

Situado a 96km a noroeste de Las Vegas, no Deserto de Nevada, o Sítio de Segurança Nacional de Nevada é o único local dos Estados Unidos onde poderiam ser realizados testes nucleares. Com 3.366 quilômetros quadrados, serviu de base para explosões atômicas entre 1950 e 1962. As detonações modificaram o relevo de forma curiosa, com centenas de crateras espalhadas pelo deserto. Entre 1962 e 1992, os testes passaram a ser subterrâneos, a fim de minimizar a liberação de radiação na atmosfera. Em 42 anos, os Estados Unidos testaram 1.054 bombas atômicas — em 63 testes, foram detonadas duas ou mais ogivas nucleares simultaneamente.

Os Estados Unidos e a Rússia permanecem vinculados pelo tratado Novo START de desarmamento, o qual limita cada parte a 1.550 ogivas ofensivas estratégicas implantadas e prevê um mecanismo de verificações, suspensas há dois anos. O tratado expira em fevereiro de 2026. Moscou propôs uma prorrogação de um ano, mas sem mencionar uma possível retomada das inspeções dos arsenais.

Veja o ranking dos maiores detentores de ogivas nucleares 

Rússia — 5.580 ogivas 

Estados Unidos — 5.225

China — 600 

França — 290

Reino Unido — 225

Índia — 180

Paquistão — 170

Israel — 90

Coreia do Norte — 50

Xiaodon Liang, analista sobre Política de Armas Nucleares e Desarmamento da ONG Arms Control Association (Associação para o Controle de Armas)

Fonte: correiobraziliense

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