07 de Março de 2026

O passado e o futuro do mel


Da Antiguidade aos laboratórios ultramodernos, o mel chama atenção da ciência há séculos. Pesquisas recentes evidenciam que essa substância produzida pelas abelhas, usada há milênios como alimento, remédio e até oferenda religiosa, continua revelando novas possibilidades, seja como base para produtos sustentáveis de alto valor agregado, seja como testemunho químico da história humana.

No Brasil, um grupo de pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) desenvolveu um produto a partir do mel de abelhas nativas e de um resíduo amplamente descartado pela indústria do chocolate, as cascas dos grãos de cacau. O estudo, publicado na revista ACS Sustainable Chemistry & Engineering, revela que o mel pode atuar como um solvente comestível capaz de extrair dos grãos compostos importantes, como teobromina e cafeína, associados à saúde cardiovascular. Desse processo, surge um novo tipo de mel, com propriedades e sabor de chocolate.

A técnica utilizada para criar esse composto foi a extração assistida por ultrassom, na qual ondas sonoras criam microbolhas que implodem, facilitando a liberação de substâncias das cascas do fruto. Nesse processo, além dos estimulantes naturais, o alimento feito pelas abelhas é enriquecido com compostos antioxidantes e anti-inflamatórios, bons para a saúde humana. O resultado é um produto que pode ser consumido puro ou aplicado como ingrediente na indústria alimentícia e cosmética.

"É claro que o maior atrativo para o público é o sabor, mas nossas análises comprovaram que ele possui diversos compostos bioativos que o tornam bastante interessante do ponto de vista nutricional e cosmético", afirma Felipe Sanchez Bragagnolo, primeiro autor do estudo e pós-doutor pela Unicamp. Segundo os pesquisadores que provaram o produto, dependendo da proporção entre mel e casca de cacau, o sabor remete fortemente ao chocolate.

O uso de mel de abelhas nativas, como jataí, mandaçaia, mandaguari, borá e moça-branca, foi essencial. O alimento produzido por essas espécies tem maior teor de água e menor viscosidade, o que favorece o processo de extração. Além disso, a pesquisa dialoga diretamente com a valorização da biodiversidade brasileira e com os princípios da química verde. Uma avaliação de sustentabilidade feita com o software Path2Green indicou bom desempenho ambiental do processo.

"Acreditamos que, com um dispositivo como esse, em uma cooperativa ou pequena empresa que já trabalha com cacau e mel de abelhas nativas, seria possível ampliar o portfólio com um produto de valor agregado, inclusive, para a alta gastronomia", avalia Mauricio Ariel Rostagno, coordenador do estudo. Em parceria com a Inova Unicamp, os pesquisadores buscam agora empresas interessadas em licenciar a tecnologia.

Na Antiguidade

Enquanto a ciência brasileira projeta o futuro do mel, outro estudo recente lança luz sobre seu passado remoto. Publicada no Journal of the American Chemical Society, uma pesquisa internacional avaliou um resíduo pegajoso encontrado em jarros de bronze em um antigo santuário grego, datado de cerca de 520 a.C., descoberto em Paestum, na Itália. Por décadas, análises indicavam que o material seria gordura animal ou vegetal contaminada. No entanto, técnicas modernas revelaram assinatura química semelhante à do mel e da cera de abelha atuais.

Os pesquisadores identificaram açúcares típicos do mel, proteínas da geleia real e sinais de degradação compatíveis com armazenamento por mais de dois milênios. "O que torna o mel um 'superalimento' não é seu teor de açúcar, e sim seus componentes minoritários, especialmente proteínas únicas, como as da geleia real. O surpreendente é que o nosso estudo demonstrou que essas proteínas sobreviveram por 2.500 anos, preservadas em um jarro de bronze", detalha ao Correio a brasileira Luciana da Costa Carvalho, coautora do estudo. "O mel é uma das substâncias mais antigas usadas pela humanidade, com funções que atravessam culturas. Serviu como alimento, medicamento, cosmético, ingrediente de bebidas fermentadas e também como elemento ritualístico."

Para a pesquisadora, o aspecto mais interessante da pesquisa é investigar não somente o mel em si, mas também os processos de degradação e os elementos biológicos que ele carregava. "Com as técnicas atuais, é possível identificar proteínas, metabólitos e até vestígios de comunidades microbianas que faziam parte desse alimento há milhares de anos."

Qual a relevância das abelhas para além da produção do mel?

O papel das abelhas na polinização é tão relevante quanto a produção de mel, pois está diretamente associado à formação de frutos e sementes. Entre os insetos, elas se destacam pela eficiência e pela ampla interação com diferentes tipos de plantas. Em regiões tropicais, estima-se que cerca de 94% das plantas silvestres com flores dependam, em algum grau, da polinização por animais. Entre as plantas utilizadas na alimentação humana, aproximadamente 75% se beneficiam desse processo. No Brasil, estudos indicam que as abelhas participam da polinização de cerca de 80% das espécies vegetais associadas à produção de alimentos. Por isso, a polinização é considerada um serviço ecossistêmico essencial, pois sustenta a biodiversidade, contribui para a estabilidade dos ecossistemas e tem impacto direto na economia. Um estudo publicado em 2019 estimou o valor desse serviço em cerca de R$ 43 bilhões por ano no Brasil. Além disso, os polinizadores também possuem relevância cultural, estando presentes em rituais, mitos e tradições de povos indígenas e comunidades tradicionais. (IA)

Fonte: correiobraziliense

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