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Falhas genéticas comuns ameaçam gestações - Social Marília
23 de Abril de 2026

Falhas genéticas comuns ameaçam gestações


Cientistas liderados por equipe da Universidade Johns Hopkins, nos Estados Unidos, descobriram que falhas genéticas comuns no DNA de mães e pais favorecem a perda gestacional. A conclusão é de que genitores com erros no DNA podem gerar óvulos e espermatozoides com problemas, que, por sua vez, dão origem a embriões com ausência ou excesso de cromossomos — as aneuploidias, uma das principais causas de abortos espontâneos. Para investigar essa questão, a equipe avaliou dados genéticos de quase 140 mil embriões de fertilização in vitro (FIV). O trabalho foi publicado ontem na revista Nature.

Segundo a publicação, a grande quantidade de dados permitiu à equipe demonstrar fortes conexões entre variações específicas no DNA dos genitores, sobretudo da mãe, e o risco de aborto espontâneo. "Esse trabalho fornece a evidência mais clara até o momento das vias moleculares pelas quais surge o risco variável de erros cromossômicos em humanos", disse o autor sênior, Rajiv McCoy, biólogo computacional da Johns Hopkins especializado em genética da reprodução humana. "Essas descobertas aprofundam nossa compreensão dos estágios iniciais do desenvolvimento humano e abrem caminho para futuros avanços na genética reprodutiva e nos cuidados com a fertilidade."

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A perda gestacional em humanos é comum, com cerca de 15% das gravidezes resultando em aborto espontâneo e muitas outras concepções perdidas em estágios iniciais sem que as pessoas percebam. A maioria dos erros cromossômicos têm origem no óvulo, e a frequência aumenta com a idade da mãe. Para descobrir como diferenças genéticas podem predispor uma pessoa a produzir gametas com falhas genéticas, a equipe estudou dados de uma empresa que testa a viabilidade de embriões fertilizados in vitro por meio da análise do DNA dos pais. Os pesquisadores estudaram 139 mil gametas fecundados de 23 mil casais e criaram um software para encontrar padrões.

"O poder reside, aqui, no enorme tamanho das amostras. Isso nos permitiu a escala e a resolução necessárias para descobrir várias das primeiras associações bem caracterizadas entre o DNA da mãe e o risco de ela produzir embriões que não sobreviverão", frisou McCoy.

Além da idade

Bruno Ramalho, ginecologista especialista em reprodução assistida e professor adjunto do Centro Universitário de Brasília (Ceub), reforça que, "ao ampliar o foco de investigação, olha-se para os óvulos novos, que também podem perder a capacidade de serem fecundados, por diversos motivos. Penso que (o estudo), não tira o peso da idade materna na fecundidade, mas amplia a atenção para outros aspectos, para além do envelhecimento".

A equipe descobriu que as associações mais fortes surgem em genes que determinam como os cromossomos se emparelham, recombinam e são mantidos unidos durante a formação do óvulo, incluindo o gene SMC1B, que codifica parte da estrutura em forma de anel que circunda e une os cromossomos. Se a função desse gene falha durante a produção do gameta, o óvulo criado pode ser defeituoso, e assim, favorecer a aneuploidia do feto gerado a partir de sua fecundação.

Segundo os cientistas, os genes destacados na pesquisa são os mesmos que biólogos detalharam ao longo de décadas como essenciais para a recombinação e a coesão cromossômica em animais modelos, como camundongos. Além disso, eles sublinham que essas mesmas variantes genéticas que influenciam o risco de perda gestacional também estão associadas à recombinação, o processo de embaralhamento genético que gera diversidade quando óvulos e espermatozoides são produzidos.

Alfonso Massaguer, ginecologista e obstetra especialista em reprodução humana, frisa que há décadas já se sabe que a principal causa da perda gestacional são as alterações cromossômicas no embrião. "Quando a análise embrionária passou a fazer parte da rotina da fertilização in vitro, há cerca de 10 a 15 anos, ficou evidente que muitas mulheres produzem um número significativo de embriões geneticamente alterados, o que explica tanto a dificuldade para engravidar quanto a ocorrência de abortamentos. Com esses dados em mãos, percebemos que o abortamento é, na verdade, apenas a ponta do iceberg."

Para Gustavo Guida, médico geneticista da Dasa Genômica, a compreensão dos mecanismos envolvidos oferece a primeira chance de desenvolver terapias que atuem diretamente na causa das aneuploidias. "É um longo caminho entre o conhecimento da fisiologia e o desenvolvimento de uma terapia, mas podemos dizer que essa passou a ser uma possibilidade real. Esse tipo de pesquisa pode mudar de forma decisiva como é feita a avaliação pré-concepcional das mulheres, modificar o risco associado à idade e impactar as gestações por via natural ou por reprodução assistida."

Agora, a equipe estuda variações raras nos genomas materno e paterno que podem ter efeitos maiores no risco de aneuploidia. Eles também estão usando novas tecnologias para entender melhor como até mesmo pequenas alterações genéticas, pouco compreendidas, contribuem para a perda gestacional.

 

 

"A medicina reprodutiva está em constante evolução, e as pesquisas são fundamentais para aprimorar a prática clínica e oferecer novas esperanças aos pacientes. Muitos abortos espontâneos recorrentes em mulheres ocorrem sem uma causa aparente, evidenciando a complexidade dos fatores envolvidos na reprodução humana. Compreensão e identificação de genes potencialmente críticos para a formação e manutenção da integridade cromossômica dos embriões podem nos ajudar a entender por que algumas mulheres são mais suscetíveis a perdas gestacionais, mas ainda estamos distantes de implementar abordagens terapêuticas personalizadas que realmente aumentem as chances de sucesso das técnicas de reprodução assistida nesses casos."

Natália Paes, ginecologista e especialista em reprodução assistida da Maternidade Brasília

Luiz Fernando Pina, ginecologista especialista em reprodução humana e endometriose e diretor da Baby Center Medicina Reprodutiva, em São Paulo


 

Fonte: correiobraziliense

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