O novo surto de infecção pelo vírus Nipah (NiV) na Índia elevou o alerta sanitário em países vizinhos, com a adoção de monitoramento de passageiros nos aeroportos de Tailândia, Taiwan e Nepal, como ocorria no ápice da pandemia de covid-19. Porém, por enquanto, apenas dois casos foram relatados em profissionais de saúde no estado de Bangala Ocidental. Ontem, o governo indiano divulgou uma nota afirmando que as 196 pessoas que tiveram contato com os doentes foram testadas e nenhum caso foi detectado.
"Todos os contatos rastreados se mostraram assintomáticos e testaram negativo para a doença do vírus Nipah", diz a nota do Ministério da Saúde da Índia. "A vigilância reforçada, os testes laboratoriais e as investigações de campo foram realizados por meio de esforços coordenados das agências de saúde federais e estaduais, o que garantiu a contenção oportuna dos casos. Nenhum caso adicional da doença do vírus Nipah foi detectado até o momento", afirmou o comunicado.
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Assim como a covid-19 e o ebola, a infecção por Nipah é considerada uma doença prioritária para pesquisa e vigilância global: com uma letalidade que chega a 75%, a enfermidade não tem tratamento específico. Um imunizante ainda está em fase de desenvolvimento (leia mais nesta página). "O vírus é considerado uma ameaça emergente, porque reúne características que preocupam muito a saúde pública: causa doença grave, tem taxa de mortalidade elevada em vários surtos, não tem tratamento antiviral específico nem apresenta potencial de adaptação a novos ambientes e populações", explica Lucas Albanez, diretor médico do Hospital Santa Lúcia Gama e doutor em ciências médicas.
Segundo Albanez, especialmente em regiões onde o vírus já circula — no sul e sudeste asiático —, há riscos de novos surtos. "Fatores como desmatamento, expansão urbana desordenada, mudanças climáticas e aumento do contato entre humanos e morcegos favorecem esse cenário", alerta. Porém, o médico ressalta que os sistemas de vigilância epidemiológica, as medidas de controle e infecção e de educação em saúde reduzem as chances de o micro-organismo se disseminar para outras regiões.
Raposas-voadoras
Identificado em 1998, o Nipah circula naturalmente em morcegos frugívoros do gênero Pteropus, conhecidos como raposas-voadoras. Esses animais não existem no Brasil. Eles já foram detectados em partes da África e da Oceania, além de na Ásia. "A principal forma de contágio ocorre pelo consumo de alimentos contaminados por secreções de morcegos, especialmente frutas que foram mordidas ou parcialmente ingeridas por esses animais, como tâmaras e outras frutas comuns nas regiões afetadas", explica a infectologista Maria Isabel de Moraes-Pinto, coordenadora de vacinas da Dasa.
Ela destaca que também existe transmissão entre humanos, especialmente por contato próximo, secreções respiratórias ou fluidos corporais. "Apesar disso, o vírus não apresenta uma taxa de transmissão tão elevada quanto a de vírus respiratórios altamente contagiosos, como o da covid-19, o que reduz o risco de disseminação ampla na comunidade", tranquiliza.
"Após o contágio, o Nipah provoca uma inflamação intensa nos vasos sanguíneos, levando à formação de microinfartos em múltiplos órgãos", descreve Klinger Faíco, infectologista e professor da plataforma de educação médica InfectoCast. Como o vírus consegue furar a barreira hematoencefálica, pode causar inflamação cerebral aguda. "Clinicamente, o quadro evolui com febre alta, cefaleia intensa e progressão rápida para o coma, muitas vezes em menos de 48 horas."
Especialistas avaliam como baixo o risco de o vírus chegar a outros países, incluindo o Brasil. "O principal fator que poderia favorecer esse cenário é a movimentação rápida de pessoas entre diferentes regiões do mundo, especialmente se um indivíduo infectado viajar durante o período de incubação", explica Maria Isabel de Moraes-Pinto. "Patógenos como o Nipah tendem a provocar surtos localizados, reforçando a importância da vigilância epidemiológica, do diagnóstico precoce e da rápida troca de informações entre países."
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