Aos 35 anos, o risco cardiovascular masculino acelera em comparação ao das mulheres, permanecendo mais alto até a meia-idade, diz um estudo com 5,1 mil pessoas publicado na Revista da Associação Norte-Americana do Coração (AHA). Segundo os autores, a descoberta sugere que estratégias de triagem e prevenção entre os homens devem ser antecipadas, pois se concentram em adultos com mais de 40 anos.
"Esse momento pode parecer precoce, mas as doenças cardíacas se desenvolvem ao longo de décadas, com marcadores precoces detectáveis na idade adulta jovem", comenta a autora sênior do estudo Alexa Freedman, professora assistente de medicina preventiva da Escola de Medicina da Universidade de Northwestern, nos Estados Unidos. "A triagem em uma idade mais precoce pode ajudar a identificar fatores de risco mais cedo, permitindo estratégias preventivas que reduzem o risco a longo prazo."
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Segundo Freedman, estudos mais antigos já indicavam que os homens tendem a sofrer doenças cardíacas mais cedo do que as mulheres. Nas últimas décadas, contudo, fatores de risco — como tabagismo, pressão alta e diabetes — se tornaram mais semelhantes entre os sexos. "Então, foi surpreendente descobrir que a lacuna não diminuiu", disse Freedman.
Medidas
Para entender melhor por que as diferenças sexuais em doenças cardíacas persistem, Freedman destaca que é importante olhar além de medidas padrão, como colesterol e pressão arterial, e considerar diversos fatores biológicos e sociais.
O estudo analisou dados da pesquisa Coronary Artery Risk Development in Young Adults (Cardia), que inscreveu mais de 5,1 mil adultos negros e brancos entre 18 e 30 anos em meados da década de 1980 e os acompanhou até 2020. Todos eram moradores dos Estados Unidos.
Como os participantes eram jovens adultos saudáveis no momento da inscrição, os cientistas conseguiram identificar quando o risco de doenças cardiovasculares começou a divergir entre homens e mulheres. "Os homens atingiram 5% de incidência de doenças cardiovasculares (incluindo infarto, acidente vascular cerebral e insuficiência cardíaca) cerca de sete anos antes das mulheres — 50,5 versus 57,5 anos", conta Alexa Freedman.
Aterosclerose
Em grande parte, a diferença foi impulsionada por doença arterial coronariana, caracterizada pelo estreitamento das artérias do coração devido ao acúmulo de placas de gordura e cálcio. Nos homens, a incidência foi de 2% mais de uma década antes das mulheres. As taxas de acidente vascular cerebral (AVC) foram semelhantes, enquanto as diferenças na insuficiência cardíaca surgiram mais tarde. "O AVC é mais fortemente influenciado por fatores como hipertensão e fibrilação atrial, um tipo de arritmia, que tendem a se igualar entre os sexos ao longo da vida. Já a aterosclerose coronariana tem início mais precoce e progressão mais rápida nos homens", diz Hober Fasciani, cardiologia da Clínica Fasciani, em Brasília.
Os cientistas também investigaram se diferenças na pressão arterial, colesterol, açúcar no sangue, tabagismo, dieta, atividade física e peso corporal poderiam explicar o início precoce de doenças cardíacas em homens. Embora alguns fatores tenham explicado parte da lacuna, a saúde cardiovascular geral não foi totalmente responsável pela diferença, sugerindo que outros fatores biológicos ou sociais podem estar envolvidos. "Os homens perdem mais cedo a proteção vascular hormonal, acumulam fatores de risco mais jovens, como tabagismo, sedentarismo, obesidade visceral, e costumam procurar menos o sistema de saúde. É um efeito combinado de biologia e comportamento", destaca Hober.
Incentivo
Para Freedman, uma das descobertas mais importantes foi a de que ainda na terceira década da vida o risco cardiovascular do homem começa a disparar, em comparação às mulheres. "Nossas descobertas sugerem que incentivar visitas de cuidados preventivos entre homens jovens pode ser uma oportunidade importante para melhorar a saúde do coração e reduzir o risco de doenças cardiovasculares", diz.
Representante regional do Departamento de Hipertensão Arterial da Sociedade Brasileira de Cardiologia em Goiás, a médica cardiologista Adriana Camargo Oliveira reforça que, segundo estudo, as informações publicadas na Revista da AHA podem ajudar a desenvolver estratégias de prevenção voltadas para adultos jovens, considerando a diferenças entre os sexos. "Estratégias de prevenção e avaliação de risco não devem ser adiadas apenas por se tratar de pacientes jovens e aparentemente saudáveis. A principal mudança apontada pelos autores é a necessidade de iniciar mais cedo a avaliação e a prevenção, especialmente entre os homens, antes que a doença se manifeste."
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