"Ei, sua jumenta, não jogue minha casca fora". Em tom de bronca, um abacaxi falante aparece em um dos vídeos que viralizaram sobre alimentos que dão dicas de saúde e cotidiano. Criados com o uso de Inteligência Artificial (IA), os conteúdos mostram alimentos e objetos dando orientações sobre como devem ser usados ou armazenados.
Nas publicações, bananas pedem para que as cascas virem adubo, pães reclamam da geladeira por ficarem "duros e sem graça", morangos imploram para não serem guardados molhados, o macarrão, o brócolis, a cenoura, alho, salsicha e até objetos de higiene como toalhas, privadas e esponjas ganham voz. Em comum, os vídeos trazem personagens com expressões humanas, geralmente ranzinzas, que ensinam supostas dicas domésticas ou alimentares, quase sempre sem citar a origem das informações: "Faça isso, evite aquilo".
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No TikTok, hashtags como #alimentosfalantes e #objetosfalantes já reúnem centenas de publicações e perfis dedicados exclusivamente a esse formato acumulam milhares de seguidores. Parte dos vídeos foi produzida com ferramentas como o Veo 3, IA do Google capaz de gerar imagens ultrarrealistas. O criador escreve um roteiro descrevendo o objeto, a emoção e a mensagem que deseja transmitir, e a tecnologia transforma o texto em vídeo.
O problema, segundo especialistas ouvidos pelo Correio, é que qualquer pessoa pode inserir informações sem respaldo técnico, inclusive orientações sobre saúde, alimentação ou comportamento. Para o professor doutor Romes Heriberto de Araújo, do curso de Engenharia de Software do Centro Universitário UNICEPLAC e pesquisador em cibernética e Inteligência Artificial, o sucesso desse tipo de conteúdo tem explicação psicológica e tecnológica.
"Esses vídeos viralizam porque combinam estranhamento cognitivo, antropomorfização e formatos curtos altamente compatíveis com os algoritmos das plataformas. O fato de um objeto inanimado falar quebra expectativas, prende a atenção rapidamente e aumenta retenção e compartilhamento", explica.
Segundo ele, o cérebro humano tende a atribuir emoções e intenções a qualquer coisa que demonstre características humanas. "O fato de um objeto inanimado falar e demonstrar personalidade quebra expectativas, prende a atenção rapidamente e aumenta retenção e compartilhamento, que são métricas essenciais para a viralização em redes como TikTok, Reels e Shorts. Essa estranheza causa uma recompensa de estímulos cerebrais que faz com que as pessoas se interessem no tema", disse.
O fenômeno psicológico por trás disso é a antropomorfização, tendência humana de atribuir intencionalidade, emoção e consciência a objetos. "O cérebro tende a atribuir características humanas a qualquer coisa que 'fale'. Objetos com voz reduzem a distância crítica. Eles parecem amigáveis, inofensivos e confiáveis. Além disso, remetem a desenhos animados, fábulas e histórias da infância, o que gera uma sensação positiva e aumenta o engajamento, fazendo com que as pessoas se interessem no tema", afirma.
"Tudo é pensado para que o objeto deixe de ser 'coisa' e passe a ser 'personagem', e personagens geram vínculo."
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