Uma mulher vestida com um terno simples azul-marinho anda de bicicleta resolutamente por uma calma rua residencial em Tóquio, no Japão.
São 8h30 da manhã, mas o tempo já está quente, e ela se sente agradecida pela viseira que protege seus olhos do sol do verão.
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Ela chega à sua primeira parada, estaciona a bicicleta e bate à porta de uma pequena casa de madeira, com plantas em vasos ao lado da entrada.
Dentro da residência, uma idosa está aguardando. Seu rosto se abre em um sorriso largo quando a mulher abre a porta. Ela esperava ansiosamente sua visita.
O Japão é uma das economias que estão envelhecendo com mais rapidez em todo o mundo.
Cerca de 30% da sua população tem, agora, mais de 65 anos de idade. E o número de idosos que moram sozinhos continua aumentando.
Com as famílias encolhendo e as tradicionais residências multigeracionais se reduzindo, o isolamento se tornou um dos maiores desafios sociais do país.
A mulher de terno é uma Yakult Lady — "Moça do Yakult". Dezenas de milhares delas em todo o Japão entregam a bebida probiótica diretamente na casa das pessoas.
Oficialmente, elas são entregadoras. Mas, na prática, elas fazem parte da rede de assistência social informal do país.
Em uma nação que enfrenta o rápido envelhecimento da população e o aprofundamento da crise de solidão, as Moças do Yakult se tornaram uma fonte inesperada de sentimento comunitário.
Elas ajudam a resolver o problema do isolamento, uma entrega de cada vez.
Com seus frascos de plástico característicos e bonés vermelhos brilhantes, a Yakult foi pioneira no seu negócio.
A bebida probiótica foi lançada 90 anos atrás no Japão, muito antes que a palavra "microbiota" passasse a fazer parte do vocabulário comum.
As Moças do Yakult eram comuns no Brasil nos anos 1970 e 1980 e atuam até hoje, mesmo com a venda da bebida em supermercados.
Mas, no Japão atual, as mulheres responsáveis pelas entregas são tão importantes para a identidade da marca quanto o próprio produto.
A iniciativa começou por acaso.
Quando o Yakult foi lançado, em 1935, a ideia de beber "bactérias" parecia ruim — algo que poderia deixar você doente e não saudável. E, para explicar o que era o produto, a empresa precisava de vendedores que batessem de porta em porta.
Naquela época, o mercado de trabalho era composto quase que totalmente de homens, mas a falta de mão de obra levou os distribuidores locais a contratar mulheres das suas comunidades. E as vendas cresceram rapidamente.
Elas apelavam particularmente para outras mulheres, que costumavam tomar as decisões sobre os produtos consumidos nas residências. Muitas vezes, elas já eram conhecidas das clientes e esta familiaridade ajudava a estabelecer confiança.
Empolgada pelo súbito aumento das vendas, a empresa decidiu implementar formalmente o programa. E, em 1963, foi estabelecida a "Rede de Vendas por Entrega das Mulheres", hoje conhecida como o sistema das Moças do Yakult.
É fácil identificar as Moças do Yakult na comunidade. No Japão, elas usam uniformes azuis com característico acabamento xadrez vermelho e acabaram sendo quase tão familiares quanto os próprios frascos do produto.
Elas costumam ser vistas passando pelos bairros de bicicleta, moto, a pé ou de carro, fazendo diversas entregas, todos os dias.
A maioria delas trabalha de forma autônoma, o que oferece a flexibilidade que atrai mulheres em busca do equilíbrio entre o trabalho e a família.
"Faço entregas às segundas, terças, quintas e sextas-feiras", afirma Satoko Furuhata, entregadora da Yakult há 25 anos.
"Como sempre tiro as quartas-feiras de folga, faço basicamente uma semana de quatro dias, o que me oferece um bom equilíbrio entre o trabalho e a vida pessoal, me mantendo descansada."
O dia de Furuhata começa às 8h30 da manhã, quando ela carrega seu carro e sai na sua rota de entrega.
"Tenho rotas diferentes a cada dia, mas visito cerca de 40 a 45 residências diariamente", ela conta.
Toda segunda-feira, há 25 anos, Furuhata visita uma mesma cliente, que deseja permanecer anônima. Ela tem agora 83 anos e mora sozinha em Maebashi, a cerca de 160 km a noroeste de Tóquio.
Desde que seus filhos saíram de casa, muito tempo atrás, a idosa passou a apreciar as visitas.
"Saber que alguém virá com certeza ver o meu rosto toda semana é um tremendo conforto", ela conta. "Mesmo nos dias em que não me sinto bem, ouvi-la perguntar 'Como você está?' na porta de casa me dá forças."
A rotina passou a ser tão permanente que ela evita fazer qualquer outra programação naquele dia e horário.
"Segunda-feira é o meu 'dia de carregamento de energia'", segundo ela.
"Eu realmente fico à espera das suas visitas. Quando toca a campainha e ouço sua voz alegre, fico instantaneamente cheia de vida."
Elas conversam sobre muitos assuntos: a família, jardinagem e o cultivo de flores, notícias locais e temas de saúde que elas leram nos jornais ou viram na TV.
"Pode parecer conversa fiada, mas me faz perceber que não estou sozinha."
O Yakult é uma bebida de leite fermentado que contém uma linhagem específica de bactérias de ácido láctico, cultivada em 1930 pelo fundador da empresa, o microbiologista Minoru Shirota (1899-1982).
Ele começou a estudar medicina na Universidade de Kyoto, em 1921. Naquela época, a economia do Japão ainda estava se desenvolvendo e muitas crianças morriam de doenças infecciosas.
Impressionado com esta situação, Shirota se dedicou a estudar a prevenção das doenças. Ele passou a se concentrar na microbiologia e, especificamente, em bactérias úteis que pudessem suprimir as bactérias nocivas do intestino.
Quando o Yakult foi lançado, ninguém entendeu e o crescimento foi lento. A cozinha japonesa já incluía muitos alimentos com micróbios vivos, como missô, natto e o tradicional molho de soja. Mas havia pouco conhecimento da sua contribuição para a saúde.
"O termo 'probiótico' ainda não existia", segundo um porta-voz da Yakult. "Conquistar a compreensão e a aceitação do público levou tempo."
Foram necessários muitos anos para que o produto realmente decolasse. Mas, em 1971 (oito anos depois da formação da rede de entregadoras de Yakult), as vendas no Japão atingiram 15 milhões de frascos por dia.
O mantra de Shirota — "intestino saudável, vida longa" — começou a ser repetido pelas mães para seus filhos. Para eles, a ideia de comer produtos fermentados para melhorar a saúde passou a ser tão normal quanto comer verduras e legumes.
O morador de Tóquio Haruko Kawabe, de 33 anos, conta que cresceu com o Yakult.
"Minha mãe sempre trazia da loja ou do seu local de trabalho e eu via constantemente as Moças do Yakult dirigindo suas bicicletas quando era criança. Sempre soube que é importante cuidar do intestino."
O interesse pela microbiota intestinal disparou em todo o mundo na última década. Mas não é apenas a alimentação que afeta a saúde do intestino.
O estresse e a solidão crônica podem prejudicar a saúde intestinal, explica a cientista Emily Leeming, que estuda o microbioma.
"Vivemos em um mundo microbiano, onde trocamos micróbios uns com os outros constantemente", explica ela. "Esta é uma razão por que a solidão está relacionada à menor diversidade da microbiota intestinal.
"E também está provavelmente relacionada ao estresse, pois a solidão causa uma reação de estresse de baixo grau que também pode prejudicar a microbiota do intestino."
A empresa não idealizou sua rede de entregas como um serviço de saúde pública. Mas, ao longo do tempo, a dimensão social das visitas assumiu significado cada vez maior no Japão.
"Permaneci saudável, sem doenças importantes, e as pessoas costumam me dizer como tenho energia", conta a cliente de Furuhata, que tem 83 anos de idade.
"Acredito que seja porque bebo Yakult há muitos anos. Mas não é só a bebida... receber as visitas da Sra. Furuhata também é muito importante para minha rotina saudável."
O Japão calcula que o número de pessoas que moram sozinhas com mais de 65 anos irá aumentar para quase 11 milhões até 2050, segundo o Instituto Nacional de Pesquisa sobre População e Assistência Social.
O país chegou a criar o termo kodokushi ("morte solitária") para se referir aos trágicos casos de pessoas que morrem sozinhas em casa sem que ninguém perceba por meses, às vezes anos. E esta crise está se agravando.
Dados da Agência de Polícia Nacional do Japão indicam que 40.913 pessoas morreram sozinhas em casa no país, entre janeiro e junho de 2025. Este número representa um aumento de 3.686 pessoas em relação ao mesmo período do ano anterior.
Em 2021, o governo japonês nomeou o primeiro "ministro da Solidão" e existe uma força-tarefa dedicada ao isolamento social no país.
Mas, em campo, as Moças do Yakult estão fazendo sua parte para ajudar a combater o problema.
Asuka Mochida tem 47 anos de idade. Ela é uma Moça do Yakult da província de Gunma, que fica perto da capital japonesa.
Quase todos os seus clientes são idosos e ela sente muito orgulho de poder oferecer a eles companhia e um olhar vigilante.
"As Moças do Yakult não são apenas pessoas que vendem produtos", ela conta.
"De certa forma, somos vigilantes, pessoas que observam os demais. Nós notamos pequenas mudanças de saúde ou estilo de vida."
As figuras maternais oferecem um rosto amigável, acompanhamento semanal e, para muitos moradores mais idosos, uma tábua de salvação, de conexão humana.
Elas também observam mudanças sutis da rotina de um cliente. Se alguém deixa de atender à porta, elas podem alertar familiares ou buscar assistência.
"Para clientes idosos ou que moram sozinhos, a tranquilidade de ver um rosto familiar é incrivelmente importante", explica Mochida.
"O Japão tem uma cultura de cuidar dos outros e da comunidade. Acho que as Moças do Yakult colocam esta cultura em prática de forma natural e sustentável."
"É um trabalho em que a responsabilidade e a gentileza se sobrepõem", destaca ela. E também traz altos níveis de satisfação.
"Mesmo nos dias atarefados, quando às vezes consigo conversar por um momento, um cliente me disse uma vez: 'Só ver o seu rosto já me dá energia.'"
"Isso me fez perceber que, embora eu não seja perfeita, simplesmente estar ali pode fazer uma grande diferença."
Existem atualmente mais de 31 mil Moças do Yakult no Japão.
O modelo foi reproduzido fora do país. Existem cerca de 50 mil vendedoras em países como a China, Indonésia, Malásia e México, além do Brasil.
Em vez de "moças" ou "mulheres", elas são carinhosamente chamadas de "mães" e "tias do Yakult". E mantêm a mesma postura de atenção e acolhimento, que faz com que seu papel na sociedade seja tão valorizado quanto no Japão.
Seja qual for a sua denominação, essas mulheres são unidas por características e habilidades similares, como "manter um sorriso verdadeiro e energia positiva", segundo Furuhata.
"A capacidade de ouvir e observar coisas", acrescenta Mochida. "Prestar atenção em pequenas mudanças é fundamental."
Em um país enfrentando mudanças demográficas e com o aumento do isolamento, esse breve intercâmbio na porta de casa pode ter mais importância do que sugere uma simples garrafinha de plástico.
Leia a versão original desta reportagem (em inglês) no site BBC Travel.
Fonte: correiobraziliense
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