No dia 5 de março de 2006, Crash: No Limite, do cineasta Paul Haggis, se tornou o 78° vencedor do Oscar de melhor filme.
A decisão foi tão surpreendente que o ator que anunciou o vencedor, Jack Nicholson, murmurou "uau!" após ler o nome do filme.
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O drama sobre raça e racismo em Los Angeles, nos Estados Unidos, acabou sendo uma escolha controversa. O azarão venceu o favorito O Segredo de Brokeback Mountain, um filme que revolucionou a representação gay no cinema.
Vinte anos depois, Crash: No Limite e sua vitória continuam a receber críticas na internet.
Como uma produção independente, de baixo orçamento, conseguiu ganhar o prêmio de melhor filme? E terá esta realmente sido a pior decisão da história do Oscar?
O filme foi escrito 10 anos depois do infame incidente ocorrido com Rodney King (1965-2012), um jovem afro-americano de Los Angeles que foi vítima da brutalidade policial, gerando protestos em massa por toda a cidade.
"[O diretor] Paul sentiu que as pessoas achavam que a questão do racismo estava superada e queria falar sobre isso", conta à BBC o produtor e um dos roteiristas de Crash: No Limite, Bobby Moresco.
Ele destaca que Haggis também foi inspirado pela sua própria experiência, por ter sido assaltado por dois adolescentes negros no lado de fora de uma locadora de vídeo Blockbuster.
"Fugiram com os filmes e, talvez, algum dinheiro que ele deu a eles", conta Moresco.
"Mas, ao pensar sobre aquelas duas pessoas, ele se perguntou: quem são eles e quais são os outros elementos da sua vida? Para onde vão esses dois caras?"
O filme terminou de ser produzido em janeiro de 2004, após 32 dias de filmagem.
Considerando seu orçamento relativamente magro, de US$ 6,5 milhões (cerca de R$ 34,1 milhões, pelo câmbio atual), ele reuniu um elenco de peso, que incluiu os atores Don Cheadle, Sandra Bullock, Thandiwe Newton, Brendan Fraser, Matt Dillon, entre outros.
Em setembro do mesmo ano, o filme foi aplaudido de pé na sua estreia mundial, durante o Festival Internacional de Cinema de Toronto, no Canadá.
A empresa Lionsgate comprou o filme por US$ 3 milhões no mesmo dia.
"É um filme fantástico, mas não é um pretendente claro aos prêmios", segundo o então presidente de filmes de ficção da Lionsgate, Tom Ortenberg. "É um filme que é divulgado de boca em boca."
No dia 6 de maio de 2005, Crash: No Limite estreou em 1.864 cinemas americanos e faturou US$ 9 milhões no fim de semana de estreia, US$ 55 milhões nos Estados Unidos e um total mundial de US$ 98,4 milhões — um enorme feito, considerando seu orçamento.
A Lionsgate iniciou sua estratégia para o Oscar pegando carona na campanha de venda do filme para exibição doméstica junto aos eleitores dos prêmios.
"Eles tiveram a brilhante ideia de promover a venda dos DVDs pouco antes do final do ano e relembrar a todos sobre o filme", conta Moresco.
Quando o longa foi indicado para o prêmio de melhor elenco do Sindicato dos Atores (SAG Awards, na sigla em inglês), a Lionsgate tomou a decisão incomum de enviar diretamente mais de 100 mil DVDs em capas de papel para todos os membros do sindicato.
Eles perceberam o potencial de convergência de votos entre os membros do SAG que também eram eleitores da Academia, composta em grande parte por atores.
O envio de uma cópia para a apresentadora Oprah Winfrey também acabou sendo uma medida vitoriosa.
Ela incentivou o público do seu talk show (cerca de nove milhões de espectadores por dia, durante a temporada 2004-2005) a procurar o filme e compartilhou seu próprio momento Crash.
Winfrey contou que teve sua entrada proibida em uma das lojas de produtos de luxo Hermès em Paris, na França, por motivos raciais.
"De repente, entramos na cultura", relembra Moresco. E a expressão "momento Crash" entrou no vocabulário com uma conexão que podia ser identificada com o filme.
Organizações negras como a Associação dos Críticos de Cinema Afro-Americanos, a NAACP Image Awards e a Black Reel Awards abraçaram o filme e o selecionaram como o melhor filme do ano.
Mas, em relação aos prêmios convencionais, mais brancos, O Segredo de Brokeback Mountain começava a se sobressair.
Esta não foi uma simples história de Davi e Golias.
O Segredo de Brokeback Mountain, filme independente do cineasta Ang Lee, é baseado em um conto de Annie Proulx, estrelado por Jake Gyllenhaal e Heath Ledger (1979-2008) como dois desafortunados caubóis.
O filme representou um momento revolucionário para a representação e aceitação da comunidade LGBTQIA+.
O longa foi o filme mais aclamado pela crítica naquele ano e rendeu globalmente mais de US$ 178 milhões contra um orçamento de US$ 14 milhões.
Brokeback Mountain atraiu até mesmo o público dos Estados americanos conservadores, onde a ideia de um "romance entre caubóis gays" poderia não ter sido bem recebida.
O longa ganhou o prêmio de melhor filme do Bafta, Globo de Ouro, Critics' Choice, Independent Spirit Awards, do Sindicato dos Produtores e de diversas outras associações de críticos de cinema.
Ainda assim, Crash: No Limite garantiu diversos troféus, como um prêmio Independent Spirit de melhor primeiro filme; o prêmio do Sindicato dos Atores de melhor elenco; e o prêmio Bafta para Thandiwe Newton como melhor atriz coadjuvante e o de roteiro original para Haggis e Moresco.
Todos estes antecedentes indicavam o que vinha pela frente em relação ao Oscar e alimentavam a concorrência entre os dois filmes.
"Havia uma rivalidade", relembra Moresco, sobre a tensão das viagens durante a temporada de premiações.
"Por alguma razão, nunca ficávamos à mesma mesa com eles, mas [a produtora e corroteirista de O Segredo de Brokeback Mountain] Diana Ossana era muito amável."
Crash: No Limite foi indicado a seis Oscars: melhor ator coadjuvante (Dillon), canção original, diretor, roteiro original, montagem e, é claro, melhor filme.
Já O Segredo de Brokeback Mountain recebeu oito indicações: melhor diretor, roteiro adaptado, ator (Ledger), trilha sonora original, ator e atriz coadjuvantes (Gyllenhaal e Michelle Williams), fotografia... E melhor filme.
"Depois que ganhamos o prêmio de melhor roteiro, as pessoas disseram que éramos favoritos, mas eu nunca pensei em ganhar como melhor filme", conta Moresco.
"Simplesmente acreditei que seria Brokeback Mountain."
Quando veio o anúncio do Oscar de melhor filme, todos ficaram chocados.
Para Moresco, "Brokeback Mountain era um filme revolucionário".
"Ninguém havia visto um relacionamento como aquele antes no cinema e, graças a Deus, eles fizeram um baita de um filme."
"Mas não era culpa minha, nem de Paul, que as pessoas votaram em nós em vez deles. De alguma forma, aquilo se voltou contra nós."
A reação foi imediata. Alguns críticos sugeriram que a homofobia do setor teria sido a razão da derrota de O Segredo de Brokeback Mountain.
Em uma entrevista de 2024, Ang Lee revelou que também concordava com este ponto de vista.
Paralelamente, em um editorial dias depois, Proulx culpou "Trash ['lixo', em inglês], perdão, Crash" e os eleitores da Academia, predominantemente de Los Angeles, "muitos deles vivendo enclausurados atrás dos portões de ferro fundido ou em casas de repouso de luxo, longe do contato não só com a cultura em mutação como um todo e a crescente comoção atual dos Estados Unidos, mas também sem contato com sua própria cidade segregada".
Ela não foi a primeira a atacar o valor de Crash.
Nas críticas sobre o lançamento, o jornal The New York Times chamou o filme de "manipulação grosseira" e o The Boston Globe criticou seus personagens e a "linha de montagem de arquétipos da criação de roteiros".
"Certamente, ele faz as pessoas brancas se sentirem bem", afirma a crítica e programadora cinematográfica Jourdain Searles.
Sua impressão é que o filme reafirma uma ideia liberal branca simplista, de que o racismo é perpetuado por certos indivíduos "maus", não um problema sistêmico e institucional complexo dos Estados Unidos.
O jornalista Gene Demby é um dos apresentadores do podcast Code Switch, que traz discussões raciais à rede de rádio pública americana NPR. Ele concorda com este ponto de vista.
Demby destaca que a vitória de Crash: No Limite no Oscar se deu dois anos antes da chegada do ex-presidente Barack Obama à Casa Branca, que ele acredita ter trazido discussões mais inteligentes sobre a discriminação racial.
"Não acho que um filme como Crash teria sido recebido da mesma forma se fosse lançado em 2009", segundo ele. "Parecia muito mais um filme para um certo tipo de pessoa satisfeita consigo mesma, que não pensava muito sobre raça e poder."
De fato, foi apenas alguns anos depois da sua vitória, com o surgimento das redes sociais e o aumento do número de blogs sobre diversidade dedicados à cultura e à política que as críticas ao filme realmente começaram a se proliferar.
A crítica de Demby de 2008, postada no seu extinto blog PostBourgie, foi mordaz. Ela chamava Crash: No Limite de "o pior filme" dos anos 2000.
O renomado escritor e jornalista Ta-Nehisi Coates repostou o artigo. Na sua reportagem de 2009 para a revista The Atlantic, Coates usa uma manchete similar, citando Demby nominalmente.
Para ele, o filme "é a apoteose de uma espécie de multiculturalismo irrefletido, indiferente e niilista. Para ser sincero, nada modera mais meu extremismo do que assistir a um colega liberal exortando as virtudes de Crash."
Desde então, o desprezo por Crash: No Limite só se fortaleceu. Críticos passaram a analisar o que eles acreditam ser retratos irreais de personagens de minorias étnicas.
O crítico Robert Daniels, editor colaborador do portal RogerEbert.com, assistiu ao filme pela primeira vez quando era um adolescente afro-americano que morava em Chicago, nos Estados Unidos.
Ele discordou imediatamente da representação de personagens como o ladrão de carros Anthony, interpretado pelo rapper e ator Ludacris.
"As pessoas negras não são um monólito", afirma ele à BBC. "O que é autêntico para uma pessoa pode mudar para outra."
"Mas eu cresci na zona oeste da cidade no final dos anos 1990, início dos anos 2000, quando havia violência de gangues. Por isso, eu conheço o personagem de Ludacris, conheço aquele cara e não é este aqui."
Searles também questiona a retratação do iraniano Farhad (Shaun Toub), dono da loja de conveniência.
Depois que sua loja é saqueada, ele acaba tentando atirar em um gentil chaveiro latino que ele havia contratado anteriormente, acreditando que ele fosse o responsável — o que não era verdade.
"Ele está sendo perseguido neste mundo pós-11 de Setembro, mas é retratado como alguém furioso, violento e sem interesse em se comunicar", explica ela.
"É a maior leitura de má-fé já feita. Devo acreditar que aquele homem simplesmente sairia para atirar em alguém porque aquilo aconteceu com ele?"
O roteirista Moresco afirma que compreende "totalmente" as críticas. Mas ele ressalta que "é um erro pensar que dois caras brancos escreveram o roteiro sem sugestões de alguém não branco".
Ele conta que recebeu comentários de uma produtora afro-americana, Anita Addison, na época executiva da rede de TV CBS. Addison recebeu diversas versões do roteiro, e o filme foi dedicado a ela.
"Tentamos conseguir o máximo de sugestões possível de pessoas que viviam aquela vida, naquela identidade", garante Moresco.
Crash: No Limite pode ter apresentado um retrato falho da sociedade de Los Angeles "colidindo uns contra os outros", como diz o exausto policial Graham Waters (Don Cheadle) nos primeiros minutos do filme.
Mas muitos também sentiram que o filme priorizou com frequência o ponto de vista dos seus personagens brancos.
"Eles têm interioridade e estão lidando com todos esses personagens negros que são apenas estereótipos", afirma Demby.
Ele destaca especificamente o policial interpretado por Dillon, que para e molesta a personagem Christine (Newton), em frente ao seu marido Cameron durante uma batida em uma rodovia — e acaba resgatando-a de um acidente de carro em uma cena posterior.
A própria Thandiwe Newton contou ao portal Vulture em 2020 que o roteiro "neutralizou a verdadeira raiva sentida pelas pessoas afro-americanas" e que ela não "engoliu" o arco redentor do personagem de Dillon.
De fato, o tratamento dado à personagem de Newton é o elemento que causou mais rejeição nos anos que se seguiram.
"Ela é o objeto, o mecanismo de redenção de Matt Dillon - e também passamos mais tempo com a sensação de humilhação do [marido] Cameron [do que a dela própria]", segundo Demby.
A jornalista especializada em cinema Stacey Wilson Hunt apresenta o podcast My Hollywood Story e é a autora de material que detalhou vitória de Crash: No Limite no Oscar, publicado em 2016.
Ela analisou o retrato sem filtros do abuso sexual no filme — um momento que, segundo ela, se tornou ainda mais poderoso em um mundo pós-#MeToo.
"Por mais horrível que seja aquela cena, para mim, não parece irreal", segundo Hunt. Mas ela também questiona a forma como o filme enobrece o abusador.
"Estamos em uma cultura que sobrevive há milênios, em que alguém pode dizer 'Oh, eu fiz essas coisas terríveis, mas vocês podem me aceitar de volta ao círculo de oração se eu fizer esta outra boa ação?'"
Em 2022, o próprio diretor Paul Haggis foi considerado culpado de estupro à publicitária Haleigh Breest em um julgamento civil e condenado a pagar uma compensação de US$ 10 milhões.
Haggis negou todas as acusações e não enfrentou acusações criminais.
Breest conta que foi motivada a mover a ação após presenciar a condenação pública, por parte de Haggis, de Harvey Weinstein, ex-produtor de cinema sentenciado à prisão por crimes sexuais.
Reavaliando o filme do ponto de vista de 2026, Demby afirma que, agora, ele parece ainda mais chocante, devido "aos acertos de contas entre raça e policiamento, em vista do que está acontecendo com o ICE", o Serviço de Imigração e Alfândega dos Estados Unidos.
"Em Crash, você pode ver as sementes deste momento", relembra ele. Mas, paralelamente, Demby acredita que seu roteiro não oferece comentários importantes sobre esta questão.
"Ele não considera o policiamento como [sistemicamente falho]. Ele não pensa naquilo como calamidades; só os transforma em dramas [pessoais]."
Por tudo isso, um filme como Crash: No Limite ganharia o Oscar nos dias de hoje?
Filmes explicitamente baseados em "problemas" continuam se saindo bem no Oscar, mas os críticos Daniels e Searles, em última análise, acreditam que não.
Para Searles, na época, "parecia uma perspectiva visionária, uma forma de reunir um grupo de atores de diferentes antecedentes em uma história".
"Por isso, ele foi um marco de representação, mas, hoje em dia, não acho que venceria."
Mas Stacey Wilson Hunt descreve os eleitores do Oscar como uma espécie "imprevisível" e acredita que tudo ainda pode acontecer.
"Qualquer filme pode ganhar o Oscar se tiver o publicitário certo por trás, se as pessoas estiverem dispostas a promovê-lo e se você tiver celebridades como amigos na indústria, promovendo festas para os títulos", afirma ela.
"A sensibilidade dos eleitores tem pouco a ver com a qualidade do filme, afinal."
Moresco permanece circunspecto sobre as controvérsias de sua vitória.
"Ela não me transformou em um melhor roteirista e não fez de nós um filme melhor do que os outro cinco", minimiza ele. "É tudo subjetivo."
Mas será que esta foi realmente a pior decisão da história do Oscar?
"Não acho que tenha sido a pior, mas certamente foi uma das piores", segundo Searles.
Para Daniels, ela perde para a ocasião em que a Academia colocou em uma mesa segregada a vencedora do prêmio de melhor atriz coadjuvante Hattie McDaniel (1893-1952), a primeira mulher negra a ganhar o Oscar, por ...E O Vento Levou, em 1940.
"Mas em relação aos outros vencedores do prêmio de melhor filme, particularmente na era moderna, provavelmente esta é a pior."
Leia a versão original desta reportagem (em inglês) no site BBC Culture.
Fonte: correiobraziliense
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