O ataque às instalações de armazenamento de petróleo nas províncias de Teerã e Alborz, no Irã, em ação conjunta de Estados Unidos e Israel, provocou um alvoroço no preço do petróleo durante o pregão de ontem, que foi marcado por recordes e altíssima volatilidade. Os bombardeios ocorridos na região ocidental do país atingiram diretamente depósitos de combustível e um centro logístico de produtos petrolíferos. A ação teve como objetivo desestabilizar o regime iraniano em um de seus pontos mais fortes: as reservas de petróleo, que representam praticamente 25% da economia do país.
Após um momento de forte alta no início da segunda-feira, quando chegou a US$ 119 o barril, o preço do petróleo voltou a se estabilizar ao longo do dia, até passar a operar em queda após o fechamento oficial do mercado. Por volta das 18h, no horário de Brasília, o barril de petróleo Brent, utilizado como referência na maior parte do mundo, operava em baixa de cerca de 4%, sendo negociado próximo a US$ 90, enquanto que o West Texas Intermediate (WTI) — padrão dos Estados Unidos — recuava 8%.
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O momento de virada de chave principal veio durante uma entrevista do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, à rede de televisão norte-americana CBS News, na qual ele afirmou que a guerra estaria "praticamente concluída" e citou a perda de capacidade do Irã de se defender. "Os mísseis estão dispersos. Os drones estão sendo destruídos por toda parte, inclusive as fábricas de drones. Se você olhar, não sobrou nada. Não restou nada do ponto de vista militar", apontou Trump.
Segundo o comentarista e especialista geopolítico Robinson Farinazzo, oficial da reserva da Marinha do Brasil, ainda não é possível fazer previsões precisas sobre o desfecho do conflito. De acordo com Farinazzo, enquanto o Irã continuar pressionando Israel, as bases militares dos Estados Unidos e os aliados no Golfo, o cenário permanecerá complexo para as forças ocidentais.
Sobre a duração da guerra, Farinazzo afirma que há estimativas divergentes. Ao contrário da fala de Trump, algumas análises indicam que a Guarda Revolucionária do Irã teria condições de manter operações militares por até seis meses, enquanto avaliações israelenses apontam que o conflito pode se estender até agosto.
Na análise de Bruno Shahini, especialista em investimentos da Nomad, o momento de alta da commodity beneficiou diretamente empresas do setor de energia, com destaque para a Petrobras, cujas ações preferenciais (PETR4) avançaram 2,49% no fechamento. "Além disso, o fato de o Brasil ser um exportador relevante de petróleo e não estar diretamente envolvido no conflito contribuiu para o sentimento de mercado, favorecendo tanto a Bolsa quanto o real", considera.
Os efeitos econômicos do conflito dependerão, principalmente, do funcionamento das rotas de energia na região e do nível de danos às estruturas petrolíferas, de acordo com a avaliação é do professor de economia internacional Masimo Della Justina, da Pontifícia Universidade Católica do Paraná. "Economicamente tudo depende do fluxo do petróleo no Estreito de Ormuz e de quanto as estruturas petrolíferas dos países do Golfo vão ser afetadas e de como o conflito se desenrola dentro do Irã", afirmou.
Ele também aponta possíveis impactos econômicos na região. "Outra mensagem é que não há segurança para grandes investimentos na região, principalmente em geração de energia para infraestrutura tecnológica e projetos ligados à inteligência artificial demandados por grandes empresas de tecnologia", afirmou.
Além da reação ao mercado internacional, a Petrobras ainda vive um bom momento com os investidores, após a empresa registrar um lucro líquido de R$ 15,56 bilhões em 2025, três vezes maior do que o registrado no mesmo período de 2024. No acumulado desse período, a estatal alcançou lucro de R$ 110,12 bilhões, o que representa mais que o dobro do obtido no ano anterior.
O mercado financeiro brasileiro encerrou o pregão com desempenho positivo ontem. O Ibovespa avançou 0,84% e fechou aos 180.195 pontos, retornando ao patamar dos 180 mil pontos após ter encerrado a sessão de sexta-feira em queda de 0,7%, aos 179.364 pontos. No mercado de câmbio, o dólar terminou o dia em baixa de 1,52%, sendo vendido a R$ 5,165.
O desempenho positivo da bolsa brasileira foi impulsionado, principalmente, pelas empresas do setor de petróleo. Papéis de companhias como PRIO, Petrobras, PetroRecôncavo e Brava Energia registraram valorização ao longo do pregão. A alta das cotações do petróleo tende a beneficiar essas empresas, especialmente a Petrobras, ao ampliar as margens obtidas com exportações da commodity.
Para o professor de economia internacional Maurício F. Bento, da Hayek Global College, o cenário econômico imediato será marcado por incerteza e reprecificação de riscos nos mercados financeiros. De acordo com o economista, a elevação dos custos de energia e de logística tende a pressionar os índices de inflação em escala mundial. Além disso, o ambiente de instabilidade pode estimular a retirada de capital de mercados emergentes.
"A elevação abrupta nos custos de energia e logística pressionará a inflação global e pode deflagrar uma fuga de capitais de mercados emergentes para ativos de proteção, como o dólar e o ouro", explicou.
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