Na terceira semana de guerra dos Estados Unidos-Israel contra o Irã, Donald Trump se vê diante de decisões que podem definir o restante de sua presidência.
Embora o presidente americano esteja lidando com um conflito que corre risco de sair do controle, essas preocupações não aparecem em público.
Na segunda-feira (16/03), durante mais de uma hora de declarações públicas na Casa Branca, Trump falou sobre o que pensa do andamento da guerra — mas também sobre reformas no Kennedy Center, planos de construção de um salão de festas na Casa Branca, a Copa do Mundo deste ano, a saúde de um congressista republicano e vários outros assuntos sem relação direta entre si.
Foi o Trump de sempre: falando de forma improvisada e abordando uma grande variedade de assuntos.
No último fim de semana, ele jogou golfe em seu resort na Flórida. E, na plataforma Truth Social, dedicou quase tanto tempo criticando a Suprema Corte quanto falando sobre a guerra no Irã.
Embora Trump possa estar interessado em outros assuntos, ele se vê diante de uma lição que presidentes americanos anteriores aprenderam da maneira mais difícil: a de que uma guerra pode acabar dominando toda a presidência, querendo eles ou não.
E continuam surgindo sinais de que a guerra que Trump havia dito anteriormente estar "praticamente vencida" e "muito bem resolvida" agora pode se estender por semanas — ou até mais.
Na tarde de segunda-feira, o presidente americano anunciou que os EUA solicitaram o adiamento, por cerca de um mês, de uma viagem presidencial planejada à China no início de abril, por causa do conflito.
"A principal responsabilidade do presidente neste momento é garantir o sucesso contínuo da Operação Epic Fury [Fúria Épica, na tradução livre para o português]", afirmou a secretária de imprensa da Casa Branca, Karoline Leavitt, referindo-se ao nome dado à guerra contra o Irã.
Durante o fim de semana, o presidente publicou na rede social que ele estava reunindo uma coalizão de forças para ajudar a proteger o tráfego marítimo no Estreito de Ormuz, que tem sido ameaçado por ataques iranianos.
"Esperamos que a China, França, Japão, Coreia do Sul, Reino Unido e outros países afetados por essa restrição artificial enviem navios", escreveu.
"De um jeito ou de outro, em breve teremos o Estreito de Ormuz ABERTO, SEGURO e LIVRE!"
Desde esse apelo, contudo, vários países — incluindo Japão, Austrália e várias potências europeias — indicaram que não têm interesse em se juntar a essa coalizão.
"Não seremos arrastados para uma guerra mais ampla", afirmou o primeiro-ministro do Reino Unido, Keir Starmer, na segunda-feira, acrescentando que está aberto a um "plano coletivo viável" para lidar com a situação no estreito.
Isso deixa Trump diante de uma decisão difícil: se deve ou não comprometer plenamente a Marinha dos Estados Unidos na missão de garantir a segurança do estreito, por onde passa cerca de 20% do petróleo consumido no mundo.
Na segunda-feira, ele afirmou que os EUA estão destruindo os navios iranianos usados para lançar minas marítimas — que representam um grande risco para a navegação no estreito —, mas ressaltou que "basta apenas um".
"É um pouco injusto", disse. "Você vence uma guerra, mas eles não têm o direito de fazer o que estão fazendo."
Há alguns indícios de que os EUA estão se movimentando para manter suas opções militares em aberto.
Na última sexta-feira, a mídia americana noticiou que o presidente ordenou o envio de uma unidade anfíbia de fuzileiros navais, composta por 5 mil soldados e marinheiros, do Japão para o Oriente Médio.
Se Trump decidir agir, isso pode colocar as forças americanas em maior risco, devido à proximidade com o Irã.
Se não agir — e optar por anunciar que os Estados Unidos já atingiram seu objetivo de enfraquecer significativamente o poder militar iraniano e encerrar a campanha militar americana — o Irã poderia continuar representando uma ameaça ao tráfego marítimo, e o preço do petróleo permaneceria elevado.
Nesse segundo cenário, os EUA podem ter gasto dezenas de bilhões de dólares sem alterar de forma decisiva o equilíbrio de poder no Oriente Médio.
De acordo com Clifford Young, presidente de assuntos públicos e insights estratégicos da empresa de pesquisas Ipsos, uma alta prolongada nos preços de energia representaria uma ameaça política muito real para um presidente que já enfrenta uma situação delicada com a opinião pública americana.
Por enquanto, segundo ele, as pesquisas indicam que a base de apoio de Trump continua ao lado do presidente, mesmo que parte desses eleitores tenha dúvidas sobre a operação no Irã e sobre outros temas centrais, como imigração e tarifas.
A perda de apoio tem ocorrido mais nas margens, entre republicanos moderados e eleitores independentes.
Embora a popularidade do presidente — com índices de aprovação na faixa dos 40% — deva preocupar os republicanos, ainda há poucos sinais de que a guerra com o Irã esteja prejudicando Trump de forma significativa.
Isso, porém, pode mudar se o conflito começar a afetar aquilo que os americanos dizem mais se preocupar nas pesquisas: o custo de vida e o poder de compra.
Os preços, especialmente de moradia, alimentos e bens de consumo, continuam altos, mesmo com a queda da inflação geral ao longo do primeiro ano da presidência de Donald Trump.
No mínimo, a guerra no Irã desvia a atenção de Trump e de seu governo dos esforços para convencer a população de que o presidente está atento às suas preocupações econômicas.
E se o preço da gasolina nos postos — motivo de orgulho para Trump até recentemente — continuar alto, isso pode ter consequências sérias para sua posição política.
O preço médio atual de um galão de gasolina nos EUA, segundo a American Automobile Association, é de US$ 3,72, um aumento expressivo em relação à média de US$ 2,94 registrada um mês atrás.
"Isso simplesmente bagunça tudo", disse Young. "A agenda de tornar a vida do americano mais acessível financeiramente acaba sendo sabotada do ponto de vista republicano."
Do outro lado da equação de riscos para o presidente está o perigo muito real que acompanha a decisão de expandir as operações dos Estados Unidos no Oriente Médio.
Com milhares de fuzileiros navais supostamente a caminho da região, Trump poderia empregar forças terrestres americanas para garantir a segurança do Estreito de Ormuz, controlar os terminais de exportação de petróleo do Irã ou localizar e desmantelar de forma mais completa partes do programa nuclear do país.
Qualquer uso de tropas americanas, porém, corre o risco de provocar uma reação mais forte da maioria da opinião pública dos Estados Unidos, que vê com desconfiança mais um possível envolvimento militar prolongado do país — inclusive entre muitos que acreditaram nas promessas de campanha de Donald Trump de evitar guerras no exterior.
"Existe um cansaço com guerras sem fim", disse Clifford Young. "Se colocarmos tropas em solo, isso representa um risco totalmente novo para o governo. Isso muda tudo."
Se o envolvimento dos EUA no Irã continuar limitado a uma campanha aérea, no entanto, Trump ainda terá tempo para recuperar sua posição política.
Embora os americanos possam ser rápidos em culpar o presidente pelos aumentos no preço da gasolina, essa irritação geralmente não dura muito se os preços voltam a cair.
As eleições legislativas de meio de mandato em novembro ainda estão a mais de sete meses, o que dá ao presidente tempo para buscar uma solução que evite uma crise econômica interna.
"Não precisamos de ninguém", disse Trump na segunda-feira. "Somos a nação mais forte do mundo."
O desafio para Trump, contudo, é que — com ou sem ajuda — nenhuma das opções que ele tem hoje está livre de riscos, e as chances de uma solução rápida e simples diminuem a cada dia.
Fonte: correiobraziliense
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