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2 milhões no show da Shakira no Rio? Como é feita contagem de multidões e por que ela importa - Social Marília
02 de Maio de 2026

2 milhões no show da Shakira no Rio? Como é feita contagem de multidões e por que ela importa


"Todo mundo no Rio". Ou, ao menos, 2 milhões de pessoas. Essa é a estimativa de público dos organizadores e de autoridades cariocas para o show da colombiana Shakira na praia de Copacabana neste sábado (2/5).

O evento deve custar R$ 15 milhões à prefeitura, segundo o Diário Oficial do Município, e a estimativa é que movimente cerca de R$ 800 milhões na economia da cidade, segundo a Secretaria Municipal de Desenvolvimento Econômico (SMDE) e a Riotur.

Mas será mesmo possível reunir tanta gente em Copacabana? E as estimativas de público são, de fato, precisas?

Em maio de 2025, a prefeitura do Rio anunciou que o show de Lady Gaga havia batido recorde e afirmou que 2,1 milhões de pessoas se aglomeraram na extensão da praia para ver a cantora. No ano anterior, o público de Madonna foi estimado em 1,6 milhão.

A BBC Verify, serviço de checagem de dados e imagens da BBC, considerou "altamente improvável" que o evento tenha reunido esse número. Segundo a análise, o público estaria mais próximo de 600 mil a 660 mil pessoas.

A publicação gerou reação do então prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes (PSD). Ele rebateu a reportagem nas redes sociais e ironizou o cálculo, dizendo que os britânicos "não entendem o Rio" e que os brasileiros ficam "bem juntinhos".

"No mesmo espaço que cabem 660 mil britânicos, cabem 2,2 milhões de brasileiros animados e felizes! E calientes!", escreveu.

Mas a disputa por números em multidões não é de hoje.

Em 1995, a Million Man March ("Marcha de um Milhão de Homens", na tradução ao português), em Washington, reuniu entre 1,5 milhão e 2 milhões de pessoas, segundo organizadores. A polícia estimou o público em 400 mil. Mais tarde, a Universidade de Boston calculou cerca de 870 mil participantes. Após o episódio, a polícia local deixou de divulgar estimativas para protestos.

No Brasil, divergências também são frequentes. Em 2015, a Polícia Militar estimou 3 mil pessoas em um protesto contra o impeachment da então presidente Dilma Rousseff (PT). Organizadores falaram em 100 mil.

Mais recentemente, um ato de apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) em Copacabana, teria reunido 400 mil pessoas em março de 2025, segundo a Polícia Militar do Rio de Janeiro. Pesquisadores do Monitor do Debate Político no Meio Digital, projeto do Grupo de Pesquisa em Políticas Públicas para o Acesso à Informação Digital (Gpopai) da Universidade de São Paulo (USP), estimaram 18,3 mil participantes no momento de pico.

Organizadores da Parada LGBTQIA+ e da Marcha para Jesus, eventos massivos realizados anualmente em São Paulo, frequentemente anunciam públicos na casa dos milhões.

Márcio Moretto, pesquisador e um dos coordenadores do monitor da USP, diz que a contagem de multidões historicamente foi marcada por estimativas imprecisas e discrepantes, muitas vezes sem base metodológica.

Segundo ele, durante décadas, números foram divulgados sem critérios claros de medição. "A gente tem diferentes especulações sobre números de pessoas nesses eventos, com graus de discrepância muito grandes. Às vezes de 100% ou 1.000% de diferença entre o que a Polícia Militar e os organizadores falam", afirmou.

Parte dessa distorção, diz o pesquisador, se deve à dificuldade humana de estimar grandes quantidades no "olhomêtro". "Se tem uma coisa que eu aprendi nessa experiência é que as pessoas são muito ruins de estimar a quantidade de pessoas em multidões", disse ele.

O especialista explica que, ao longo do tempo, criou-se um padrão inflacionado de referência, especialmente após grandes mobilizações como as manifestações de 2013.

Segundo Moretto, eventos considerados muito grandes raramente ultrapassam a marca de 100 mil pessoas. "O que eu aprendi com isso é que 70 mil pessoas numa manifestação é muita gente, muita gente mesmo."

Para ele, a inflação dos números também está associada a uma lógica comparativa entre eventos. Organizadores tendem a se basear em estimativas anteriores e igualmente imprecisas para dimensionar novos públicos. "Criamos um castelo cuja fundação é areia."

Antes da popularização de tecnologias mais recentes, a contagem de público era feita com métodos "rudimentares", segundo Moretto. Em alguns casos, equipes estrategicamente posicionadas contavam manualmente o fluxo de pessoas e, a partir de amostras, extrapolavam uma estimativa para áreas maiores.

Com o tempo, métodos mais sistemáticos foram desenvolvidos para evitar o "chutômetro". O mais conhecido é o método de Jacobs, criado na década de 1960 por Herbert Jacobs, professor da Universidade da Califórnia, que consiste em multiplicar a área ocupada pela densidade média de pessoas por metro quadrado.

A lógica segue sendo a base de muitas estimativas atuais.

Foi com esse princípio que a equipe da BBC Verify analisou o público do show de Lady Gaga em Copacabana, em 2025. O jornalista Richard Irvine-Brown explica que o ponto de partida são imagens aéreas do momento de maior concentração de pessoas.

A partir delas, a equipe mediu a área ocupada com ferramentas como Google Maps e Google Earth e aplicou uma densidade padrão para eventos desse tipo. "A gente simplesmente mede o espaço e diz: temos tantos metros quadrados. E, se usamos a densidade recomendada para um evento esportivo ou show, que é de 4,5 pessoas por metro quadrado, chegamos a algo como 500 mil ou 600 mil pessoas", afirmou.

Segundo especialistas internacionais em segurança de multidões, como Keith Still, da Universidade de Suffolk, no Reino Unido, densidades acima de 4,5 pessoas por metro quadrado já representam um limite crítico para a segurança do público em uma aglomeração.

Mesmo considerando não apenas a faixa de areia, mas também ruas, calçadas e áreas adjacentes, a estimativa da BBC ficou muito abaixo dos milhões divulgados oficialmente pela Prefeitura do Rio.

Irvine-Brown afirma que a principal incerteza não está no cálculo em si, mas nas premissas adotadas — especialmente em relação à densidade e à delimitação da área. Ainda assim, ele diz que a metodologia permite estabelecer limites plausíveis. E, mesmo em cenários mais generosos, os números não se aproximam dos milhões anunciados.

Um cálculo semelhante foi feito por Mariana Aldrigui, professora de turismo da USP. Assim como na análise da BBC, o ponto de partida é medir quanto espaço está disponível, com base em mapas e imagens de satélite.

A partir daí, ela testou diferentes cenários: quantas pessoas caberiam nesse espaço dependendo de quão apertada está a multidão.

Em uma situação extrema, com nove pessoas por metro quadrado, o público caberia em uma área menor e mais concentrada. Já em cenários mais realistas, com cinco ou sete pessoas por metro quadrado, é preciso ocupar uma área muito maior ao longo da orla para comportar o mesmo número de pessoas.

Aldrigui afirma que estimativas de público frequentemente ignoram limitações físicas e logísticas do espaço. "Uma densidade tranquila para o show é três pessoas por metro quadrado. Quando a gente vai em show é que todo mundo se aperta em cinco pessoas por metro quadrado. Se chega a nove pessoas por metro quadrado é numa única situação limite, que são metrôs em horário de pico", diz.

Com base nesses parâmetros, ela afirma que, mesmo em cenários otimistas, o público dos shows de Copacabana não alcançaria os milhões frequentemente divulgados. "Não passaria de 800 mil pessoas", defende. "Simplesmente não cabe."

A professora também argumenta que a infraestrutura urbana não suportaria volumes tão elevados de público. Segundo ela, indicadores como transporte, número de banheiros químicos e volume de lixo coletado não condizem com estimativas na casa dos milhões.

Na avaliação da pesquisadora, a divulgação de números inflados ocorre, em parte, porque raramente é questionada. "A razão número um é porque ninguém duvida", afirmou.

Para Aldrigui, há também uma lógica de competição entre organizadores e gestores públicos, que tendem a anunciar públicos cada vez maiores. Segundo ela, esse movimento distorce a percepção de sucesso dos eventos e reforça uma "megalomania" baseada apenas no volume de pessoas.

A professora argumenta que o foco deveria estar em outros indicadores, como impacto econômico e social. "A gente tem que abandonar essas métricas que são apenas de acumulação", afirmou.

Ela defende que o sucesso de eventos deve ser medido pela geração de renda, empregos e melhoria da qualidade de vida local — e não apenas pelo número de participantes.

Para Aldrigui, a falta de precisão tem consequências práticas. "Eu gostaria de viver num mundo em que a gente possa usar os números de forma a ser capaz de tomar decisão e de fazer escolhas", afirmou.

O uso de dados de telefonia móvel é outra alternativa, ainda pouco explorada no Brasil, para estimar público em grandes eventos. A metodologia utiliza registros georreferenciados de celulares conectados à rede para identificar a presença de pessoas em determinada área.

Segundo o pesquisador Júlio Chaves, professor da Escola de Matemática Aplicada da Fundação Getulio Vargas (FGV), cada aparelho representa apenas uma fração da população total. Isso porque os dados geralmente pertencem a uma única operadora. "Nem todo mundo é cliente da Vivo, nem todo mundo é cliente da Claro, então você precisa fazer o fator de expansão", explicou.

O cálculo leva em conta o chamado market share das operadoras (qual a fatia que cada uma detém do mercado), que varia conforme a região de origem dos usuários. A partir dessas proporções, é possível extrapolar o número de aparelhos conectados para estimar o total de pessoas presentes.

A localização dos usuários é inferida a partir da conexão com antenas de telefonia. Em áreas densamente povoadas, a proximidade entre antenas permite maior precisão.

Com a evolução dos smartphones, os dados se tornaram ainda mais detalhados. Mesmo sem interação ativa, como ligações, os aparelhos enviam sinais periódicos à rede. "Só o fato de ter o WhatsApp, ele já manda um sinal", disse.

Apesar das vantagens, o método tem limitações. Ele não distingue automaticamente entradas e saídas ao longo do evento e depende da qualidade da cobertura de rede. Além disso, o acesso aos dados é restrito.

As informações também são consideradas sensíveis por envolverem localização. "Mesmo que venha identificado, é um dado sensível, porque ele tem latitude e longitude", afirmou.

Para o pesquisador, o ideal é combinar diferentes metodologias. O cruzamento de dados de telefonia, imagens aéreas e informações de transporte pode aumentar a confiabilidade das estimativas.

Já o uso de drones e algoritmos representou um avanço significativo na medição de multidões.

O Monitor do Debate Político aplica esse método em eventos de diferentes espectros políticos e frequentemente chega a números inferiores aos divulgados por organizadores.

Segundo o pesquisador Márcio Moretto, a principal vantagem do uso de drones está na captura de imagens verticais, o que permite identificar com mais precisão a distribuição das pessoas.

"Quando a foto é exatamente de cima, dá para perceber que, por mais que pareça denso, é só um pedaço", afirmou. Imagens feitas na diagonal, comuns em registros a partir de carros de som ou prédios, tendem a superestimar a densidade.

O método, no entanto, também tem limitações. Áreas cobertas, como marquises, dificultam a contagem. Mas treinamento dos algoritmos com imagens reais, afirma o pesquisador, permitiu reduzir a margem de erro das estimativas, de cerca de 20% para aproximadamente 12%.

Além disso, em eventos com grande circulação, como o Carnaval, a estimativa se refere a um recorte no tempo. "A gente pega um momento de pico. Não é um filme de quem está entrando e saindo do evento."

Richard Irvine-Brown, da BBC Verify, defende que a verificação dos números em grandes eventos é essencial, especialmente em contextos políticos.

"As pessoas estão tentando provar um ponto político. E, quando você mostra que os números podem estar exagerados, você ajuda a cortar o exagero da narrativa", afirmou.

Ele também destaca o impacto na segurança pública. Superestimar a capacidade de um espaço pode levar a situações de risco. "Não se deve tentar colocar 2 milhões de pessoas nesse espaço — as pessoas podem ser sufocadas, pode haver pânico e correria", disse.

Já Moretto afirma que estimativas confiáveis são fundamentais tanto para o debate público quanto para o planejamento de políticas públicas.

Segundo ele, eventos com dezenas de milhares de pessoas são expressivos, mas não equivalem a milhões de eleitores. A distinção é importante para evitar interpretações equivocadas.

Além disso, a precisão influencia diretamente a organização de eventos, como dimensionamento de segurança, transporte e infraestrutura.

"A partir do momento que a gente começa a ter método, a gente começa a desmistificar certas coisas", afirmou.

O pesquisador da USP avalia que a disputa por números elevados tem também um componente político e simbólico. Segundo ele, a quantidade de público passou a ser usada como indicador de sucesso.

"A pessoa vai naquele ano e avalia: esse ano foi maior ou menor do que o ano anterior. Aí ele avalia o número a partir do que foi dito no ano anterior", afirmou.

Para ele, esse mecanismo cria um ciclo em que estimativas infladas alimentam novas projeções igualmente distorcidas. Por isso, a adoção de métodos replicáveis pode ajudar a trazer mais transparência.

"Mais importante do que a precisão absoluta é a possibilidade de comparar números de forma consistente ao longo do tempo."

Fonte: correiobraziliense

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