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Há exatamente um ano, do alto da varanda da Basílica de São Pedro, o norte-americano Robert Prevost — agora 266º sucessor do apóstolo Pedro — dirigia-se pela primeira vez a mais de 100 mil fiéis reunidos na Cidade do Vaticano. "A todos os povos, onde quer que estejam, a todas as nações, a toda a Terra: a paz esteja convosco", afirmou. Também enviou uma mensagem especial à própria Igreja. "Devemos procurar, juntos, como ser uma Igreja missionária, uma Igreja que constrói pontes, dialoga, sempre aberta para acolher." No mês passado, condenou a guerra entre Estados Unidos, Israel e Irã e tornou-se alvo de críticas do presidente Donald Trump. O titular da Casa Branca chamou-o de fraco e o acusou de colocar cristãos do mundo em perigo. Leão XIV não escolheu o silêncio e saiu em defesa da paz.
"É um papado de conciliação. No início do pontificado, Prevost falou aquela clássica frase 'Uma paz armada desarmante'. Isso é o que ele busca fazer. A própria personalidade de Leão XIV o ajuda. Em pouco tempo, conseguiu unir os vários grupos dentro do catolicismo", declarou ao Correio Mirticeli Medeiros, vaticanista e doutorando em história do catolicismo, em Roma. Ela lembrou que, depois das críticas recebidas pelo presidente Donald Trump, católicos tradicionais, progressistas e conservadores uniram-se para defender Leão XIV. "O papa tem conseguido bom trânsito entre vários grupos da Igreja Católica, e vejo isso como um saldo positivo", observou.
Para Mirticeli, o pontificado de Prevost começou, de fato, neste ano. "Na primeira entrevista a jornalistas, depois do conclave, ele disse que estava aprendendo a ser chefe de Estado. O fruto desse aprendizado são as declarações dadas este ano, que são muito mais fundamentadas. Agora, Leão se impõe de uma maneira muito mais direta. Ao ser questionado sobre questões geopolíticas, ele responde como representante da Santa Sé, que possui uma 'política de Estado' que independe do papa que a governa", comentou a vaticanista.
Mirticeli vê uma "ruptura" de Leão XIV em relação ao pontificado de Francisco, em janeiro deste ano. "Foi quando ele convocou o primeiro Consistório, conversa com os cardeais e pede o auxílio deles para governar. De maio a dezembro do ano passado, Leão XIV manteve praticamente toda a Cúria do papa Francisco. Agora, ele começou a impor sua marca e a se expressar quando considera oportuno. No início, estava muito silencioso. Agora, conduz seu pontificado imprimindo sua identidade", explicou.
Especialista em Vaticano e doutor em ciências sociais pela Pontifícia Universidade Gregoriana (em Roma), Filipe Domingues disse ao Correio que o primeiro ano marca apenas o início do pontificado de Leão XIV. "A gente prevê um pontificado relativamente longo, se tudo correr bem e ele estiver bem de saúde. Ele entrou no comando da Igreja com 69 anos. A última vez que houve um papa dessa idade foi em 1988, com João Paulo II. Leão XIV mostra uma vitalidade: ele faz muitas coisas, conversa e tem muita energia. Um dia depois de uma viagem muito longa à África, estava reunido com as pessoas", lembrou.
O estudioso cita a capacidade linguística e a visão muito pastoral da realidade partilhada com o seu antecessor, o papa Francisco. "Leão XIV olha para o mundo como pastor, um líder religioso que quer anunciar a mensagem do Evangelho e estar perto dos fiéis. Ele tem esse perfil. Também vejo uma visão analítica dos problemas do mundo, além de pragmática e contida da diplomacia. Ele quase nunca sai do protocolo, mas, quando o faz, responde diretamente", disse Domingues.
Ainda de acordo com o vaticanista brasileiro, o primeiro pontífice americano iniciou sua missão em meio a um contexto no qual boa parte da instabilidade mundial provém do estilo de governo e das tomadas de decisão do presidente Donald Trump. "Isso entrou na área de ação, de observação e de atenção do papa, que é a questão da paz. Defender a dignidade humana em todas as suas situações, do começo da vida até o fim, é parte da missão do papa. Todas as questões de moral e de fé estão no campo de ação do pontífice. Quando líderes globais colocam em ameaça a dignidade e a vida humana, a paz, o direito à liberdade e os direitos humanos, eles pisam no campo de ação do papa", explicou Filipe Domingues.
Por isso, o estudioso baseado em Roma entende que, neste primeiro ano, Leão XIV rapidamente tornou-se uma autoridade moral, que fala e responde às questões do mundo. "Ele busca apaziguar ânimos, mas dizer a verdade quando precisa ser dita e apontar os problemas. Um exemplo é quando fala que se gastam bilhões de dólares na indústria armamentista. É a única pessoa, no contexto global, que está dizendo essas coisas."
De Chiclayo a Roma
Quem conviveu com Robert Prevost em Chiclayo, no norte do Peru, não vê muita diferença entre o bispo da cidade de 600 mil habitantes e o líder da Igreja Católica. "Nosso papa Leão segue sendo o mesmo bispo que tivemos aqui em Chiclayo, com essa simplicidade e humildade com que tratava seu povo. Ele se mostrava próximo de todos, dos laicos, dos sacerdotes e das autoridades. Sempre esteve atento a todos", afirmou ao Correio Zuly Castro Saavedra, 55 anos, que foi secretária da Cúria da Diocese de Chiclayo por 40 anos e conhece Prevost desde novembro de 2014.
Zuly destaca que, neste primeiro ano de pontificado, Leão XIV sempre fez um chamado à paz. "Desde o primeiro dia, suas palavras foram em defesa da paz. Ele tem buscado a paz e a unidade a todos os cristãos a nível mundial", disse. "Nós rezamos muito para que isso ocorra. Também vejo a visita que Leão XIV tem feito a alguns países, com o mesmo carisma e a mesma simplicidade."
"Vejo um papa muito seguro de seu papel. Ele tem uma consciência muito grande do papel que representa e de sua missão — anunciar o Evangelho e confirmar as pessoas na fé. Ou seja, apresentar a mensagem, a vida e a pessoa de Cristo a quem não conhece, e confirmar na fé aqueles que conhecem. É uma missão religiosa. Não podemos deixar de ver o papa como um líder religioso. Leão XIV mesmo falou que não é um político e que não está aqui para debater com um político. Com um estilo contido, discreto, pragmático e diplomático, Leão XIV consegue transmitir essa proximidade, o carinho e o zelo pastoral."
Filipe Domingues, especialista em Vaticano e doutor em ciências sociais pela Pontifícia Universidade Gregoriana (em Roma)
"Eu o enxergo como um papa que tem colocado em execução a reforma iniciada pelo papa Francisco. Jorge Mario Bergoglio deixou para ele praticamente um esboço dessa reforma. Francisco conseguiu aprovar o documento de reforma da Cúria Romana, mas não viu os frutos desse dossiê e do Sínodo sobre a Sinodalidade. Leão colhe essas inspirações de Francisco e as leva de maneira concreta em seu pontificado."
Mirticeli Medeiros, vaticanista e doutorando em história do catolicismo, em Roma
A ascensão de Prevost ao Trono de São Pedro
Naquele 8 de maio de 2025, estive na Cidade do Vaticano cobrindo o 76º conclave da história da Igreja Católica, depois de dias de Congregações Gerais e do funeral do papa Francisco. Eu estava falando com a equipe técnica da TV Brasília, ajustando o áudio, minutos depois de participar do C.B. Poder. De repente, escutei gritos de alegria atrás de mim. Assim que me virei, vi a fumaça branca subindo da chaminé da Capela Sistina e um mar de celulares apontados para o mesmo lugar. Ao mesmo tempo, testemunhei pessoas se abraçando, emocionadas.
Assim que o nome de Robert Prevost foi anunciado por Dominique Mamberti, protodiácono do Colégio dos Cardeais, o primeiro sentimento entre os fiéis foi de perplexidade. "Um americano?". "Ele é alinhado com Trump?". Eram algumas das perguntas que escutei. Um jovem católico dos Estados Unidos, eufórico, subiu na grade que divide a Via de La Conziliazione — que liga Roma à Praça de São Pedro — e começou a gritar, incrédulo. "Temos um papa!", afirmava. Pouco mais de uma hora depois, Leão XIV foi apresentado à multidão, do balcão da Basílica de São Pedro. Os católicos e turistas que presenciaram a história estavam em festa. (RC)
O secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, saiu de um encontro de 45 minutos com o papa Leão XIV satisfeito e confiante no relançamento das relações entre Washington e a Santa Sé. Rubio foi ao Palácio Apostólico, no Vaticano, com a missão de contornar os impactos negativos de uma dura troca de declarações entre o pontífice e o presidente Donald Trump, com críticas recíprocas a respeito da guerra no Iraque.
Um integrante da equipe de Rubio, que pediu anonimato, classificou a conversa como "amistosa e construtiva". Em comunicado, o porta-voz do Departamento de Estado, Tommy Pigott, relatou que o secretário e o papa "revisaram os esforços humanitários em curso (no continente americano) e as iniciativas para estabelecer uma paz duradoura no Oriente Médio". A audiência, segundo Pigott, "ressaltou a solidez das relações entre os EUA e a Santa Sé, além do compromisso de ambos em favor da paz e da dignidade humana".
As escaramuças (verbais) entre Trump e o papa começaram há cerca de um mês, quando o chefe da Casa Branca rebateu críticas da Santa Sé à guerra iniciada por EUA e Israel no Oriente Médio, com ataques ao Irã e, depois, ao Líbano. Trump classificou o líder de 1,4 bilhão de católicos, e primeiro pontífice nascido nos EUA, como "fraco com o crime e péssimo em política externa". Leão XIV condenou como "realmente inaceitável" a ameaça do compatriota de "varrer do mapa a civilização" persa.
Depois uma breve trégua, o presidente dos EUA voltou à carga no início da semana, quando criticou o papa por, supostamente, "achar que está tudo bem o Irã ter uma arma nuclear". "Se alguém quer me criticar por proclamar o Evangelho, que faça com a verdade", retrucou Leão XIV. "A Igreja tem falado há anos contra todas as armas nucleares, portanto não há dúvida quanto a isso."
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