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'É como se a morte viesse nos buscar todo mês': o pesadelo das mulheres com transtorno disfórico pré-menstrual - Social Marília
30 de Maio de 2026

'É como se a morte viesse nos buscar todo mês': o pesadelo das mulheres com transtorno disfórico pré-menstrual


Aviso: esta reportagem contém informações sobre suicídio.

Na manhã seguinte à tentativa de suicídio, Annika Waheed menstruou. O desespero a abandonou e ela sentiu um grande alívio.

"Eu realmente fiz isso?", perguntou à irmã, que a abraçava forte para protegê-la enquanto dormia após a tentativa de overdose. "Sim, você fez", respondeu a irmã.

Annika passava duas semanas por mês atormentada por pensamentos suicidas e, então, como por mágica, a escuridão se dissipava assim que a menstruação chegava. "Então, eu conseguia enxergar e funcionar normalmente de novo", diz ela.

"Como meus hormônios podem fazer isso comigo?", questiona-se. A mulher, que tem 42 anos, sofre de transtorno disfórico pré-menstrual (TDPM) há mais de oito anos.

O TDPM é um transtorno mental que causa sintomas psicológicos graves e, às vezes, físicos. Pode afetar mulheres em qualquer fase da vida, mas geralmente coincide com períodos de mudanças hormonais significativas, como puberdade, parto ou menopausa.

Assim como a síndrome pré-menstrual (TPM), o transtorno disfórico pré-menstrual (TDPM) ocorre uma ou duas semanas antes da menstruação, durante a fase lútea. No entanto, é muito mais intensa.

Enquanto a TPM pode causar cansaço, irritabilidade e inchaço, o TDPM pode desencadear ansiedade grave, depressão e sofrimento psicológico intenso.

As mulheres também podem apresentar sintomas físicos como fadiga, dores de cabeça e dores articulares, mas para o diagnóstico de TDPM é necessário que haja também a presença de sintomas relacionados ao humor.

A Associação Internacional para Distúrbios Pré-Menstruais (IAPMD), uma organização global de pesquisa sem fins lucrativos, estima que o transtorno disfórico pré-menstrual (TDPM) afeta 115 milhões no mundo todo. Isso equivale a aproximadamente 2% a 5% das mulheres em idade reprodutiva, ou cerca de 1 em cada 20. Mas apenas uma pequena fração recebe um diagnóstico.

O suicídio é uma questão complexa, mas alguns estudos sugerem que o transtorno leva a uma maior probabilidade de pensamentos suicidas. "A síndrome pré-menstrual pode ser muito difícil", diz Annika, que também apresenta sintomas físicos como palpitações, fortes dores nas costas e inchaço. "Mas isso? Isso é outra coisa."

"É como se a morte estivesse vindo nos buscar todo mês. Você sente, e não há nada que possa fazer", diz ela.

Acredita-se que mulheres afetadas pelo TDPM experimentam uma reação severa e negativa às flutuações hormonais naturais que ocorrem em seus corpos antes da menstruação.

A reação se deve principalmente a alterações nos níveis de progesterona, que atingem o pico, e nos níveis de estrogênio, que flutuam, desencadeando sentimentos intensos de desespero, perda e falta de controle.

Embora ainda seja desconhecido, do ponto de vista científico, por que o TDPM é desencadeado em algumas pessoas, pesquisadores na Escócia desenvolveram uma ferramenta inovadora de prevenção ao suicídio, projetada para ajudar os médicos a identificar os sinais de mulheres que apresentam sintomas desse transtorno.

"Por muito tempo, as mulheres conviveram com essa condição sem ter ideia do que a estava causando", diz Lynsay Matthews, da Universidade do Oeste da Escócia, que liderou a pesquisa. "Embora o ciclo menstrual desempenhe um papel vital na saúde da mulher, raramente é mencionado em consultas médicas."

Matthews afirma que perguntar às mulheres sobre seu ciclo menstrual pode ajudar médicos e pacientes a identificar padrões e entender se sua saúde mental está sendo prejudicada.

O modelo fornece informações cruciais sobre como mulheres com TPMD podem reagir ao suicídio de forma diferente da população em geral.

A próxima fase, explica Matthews, envolve medir sua eficácia em ajudar mulheres, com a esperança de que seu uso se torne mais disseminado.

Helen Wall, especialista em saúde da mulher, afirma que os médicos "ainda têm dificuldade em conectar certos fatores à menstruação feminina". "Precisamos ouvir as histórias das mulheres e entender o que está acontecendo no contexto de seus hormônios."

Cada vez mais mulheres estão documentando suas experiências com o TDPM nas redes sociais: publicações com a hashtag #TDPM somam mais de 230 milhões visualizações no TikTok.

Uma delas é de Katie Cook, que recebeu o diagnóstico de TDPM no ano passado, aos 21 anos, após uma década lutando contra problemas de saúde física e mental.

Ela diz acreditar que o TDPM se manifestou quando teve sua primeira menstruação, aos 12 anos: "Foi aí que a batalha na minha mente começou".

"É como se eu fosse o Dr. Jekyll e o Sr. Hyde", explica, fazendo referência ao famoso romance de terror O Médico e o Monstro, de Robert Louis Stevenson.

Ela conta que, durante a fase lútea, pouco antes da menstruação, tudo fica sombrio. Seu corpo dói, ela fica sensível à luz e ao som, e tudo parece oprimi-la. Mas seu clínico geral disse que essas mudanças bruscas de humor eram esperadas durante o crescimento.

Katie começou a monitorar suas oscilações de humor e outros sintomas ao longo do mês e passou a notar certos padrões. Então, no primeiro ano de universidade, outra médica perguntou se ela já tinha ouvido falar de transtorno disfórico pré-menstrual. "Tudo começou a fazer sentido", ela conta.

Obter um diagnóstico pode abrir portas para diferentes opções de tratamento, mas Annika afirma que simplesmente "sentir-se compreendida" já é uma "experiência gratificante".

O trabalho de Matthews na detecção dos sinais de TPMD poderia tê-la ajudado, ou até mesmo evitado, que ela chegasse a um ponto tão desesperador em sua vida? "Com certeza", diz Annika. "Eu não teria me deixado manipular psicologicamente por médicos."

"Se os médicos entendem, os pacientes também entendem. Eu poderia ter explicado esses pensamentos suicidas aos meus amigos e familiares, e talvez pudesse ter me protegido."

No Reino Unido, por exemplo, o governo reconheceu que mulheres com transtorno disfórico pré-menstrual "foram negligenciadas por muito tempo". Em um comunicado, um porta-voz do Departamento de Saúde e Assistência Social disse: "Com muita frequência, seus sintomas são minimizados ou normalizados, e isso precisa mudar."

O órgão britânico afirmou que a Estratégia de Saúde da Mulher renovada "garantirá que as mulheres sejam ouvidas e levadas a sério desde a primeira consulta" e que sejam encaminhadas ao profissional de saúde adequado "desde o início".

Existem diversos tratamentos que podem ser adaptados ao transtorno, mas para muitas pessoas, incluindo Annika, encontrar o que funciona pode ser uma questão de tentativa e erro.

Além de antidepressivos, as mulheres podem receber métodos contraceptivos como a pílula ou o DIU Mirena, que ajuda a regular os hormônios.

Há também opções mais extremas, como a menopausa química e, em alguns casos, a remoção dos ovários para interromper o ciclo hormonal natural.

Annika recebe injeções para bloquear os hormônios e interromper seu ciclo menstrual para tratar o TDPM. No entanto, poucos minutos após o efeito da medicação passar, ela diz sentir raiva, fúria ou desespero, dependendo da fase do ciclo menstrual em que se encontra.

Viver com as consequências do TDPM tornou impossível para Annika considerar a gravidez e a maternidade, e estar na menopausa química eliminou qualquer possibilidade de engravidar.

Há momentos em que ela imagina uma vida alternativa, em que poderia ter sido mãe, mas ela diz: "A TDPM me roubou essa possibilidade."

Aos 31 anos, Lily Rose Winter, integrante da crescente comunidade online de pessoas com transtorno disfórico pré-menstrual, está considerando a possibilidade de iniciar a menopausa química.

Lily levou anos para receber o diagnóstico e já tentou diversos tratamentos, mas até agora nenhum teve um impacto significativo nos sintomas que sente todos os meses. "Estou aprendendo a ressignificar a situação. Em vez de tentar ser positiva e dizer a mim mesma que deveria me sentir bem, digo que está tudo bem não me sentir grata por estar viva hoje, e que isso também vai passar. Preciso ter paciência."

Fonte: correiobraziliense

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