Erro na linha: #74 :: Undefined array key "p"
/home3/janefu16/public_html/sites/socialmarilia.com.br/index.php

Novo tarifaço dos EUA pode pressionar políticas internas, diz especialista - Social Marília
03 de Junho de 2026

Novo tarifaço dos EUA pode pressionar políticas internas, diz especialista


O possível novo tarifaço dos Estados Unidos contra o Brasil pode representar um desafio à autonomia do país em áreas estratégicas que vão da regulação digital às políticas ambientais. A avaliação é do pesquisador de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (UnB), Vitor dos Santos Bueno. Para ele, diferentemente da primeira onda de tarifas anunciada por Washington em 2025, o foco da pressão norte-americana não está apenas no comércio, mas também em temas da agenda doméstica brasileira, em um contexto de crescente disputa por influência política e econômica na América Latina.

Embora as tarifas sejam o instrumento mais visível da ofensiva de Washington, as preocupações apresentadas pelos Estados Unidos abrangem questões sensíveis da agenda brasileira, como propriedade intelectual, serviços digitais públicos, regulação de grandes empresas e políticas ambientais. “As preocupações manifestadas pelos Estados Unidos vão além da questão tarifária e abrangem áreas cuja definição compete às instituições brasileiras. Uma eventual capacidade de influência externa sobre essas políticas representaria um desafio significativo à soberania decisória e à autonomia do Estado brasileiro”, afirma.

A nova movimentação ocorre cerca de um ano após a primeira onda de tarifas anunciada pelo governo de Donald Trump contra produtos brasileiros. Desta vez, porém, o contexto é diferente. De acordo com Bueno, os canais de comunicação entre Brasília e Washington estão mais abertos, mas os riscos estratégicos se tornaram maiores.

Isso porque a administração Trump passou a utilizar novos instrumentos legais para sustentar sua política comercial. A mudança ocorre após a Suprema Corte dos Estados Unidos considerar inconstitucional a base jurídica utilizada para justificar parte das tarifas anteriores.

Agora, o governo norte-americano recorre à Seção 301 da Lei de Comércio de 1974, mecanismo que autoriza investigações sobre práticas consideradas prejudiciais aos interesses comerciais dos Estados Unidos e permite a adoção de medidas de retaliação, incluindo novas tarifas. A legislação já foi utilizada por Trump durante a guerra comercial com a China e mantida, em grande parte, pelo governo Joe Biden. No entanto, o especialista ressalta que a situação brasileira é diferente.

“No caso da China, as tarifas estavam inseridas em uma disputa estratégica ligada à competição tecnológica e industrial entre as duas maiores potências do mundo. O Brasil não ocupa esse mesmo papel na relação com os Estados Unidos”, explica.

Para Bueno, a pressão atual reúne interesses econômicos, diplomáticos e políticos. Ainda que as três dimensões estejam conectadas, o foco principal parece estar no alinhamento político e diplomático de países considerados estratégicos para Washington. Ele cita declarações recentes do secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, que classificou o Brasil entre os países não considerados “amigáveis” aos interesses dos Estados Unidos.

Na avaliação do pesquisador, a postura faz parte de um esforço mais amplo para ampliar a influência norte-americana na América Latina e reduzir a dependência de parceiros vistos como concorrentes estratégicos, especialmente a China.

Embora ainda não esteja claro qual será o alcance das novas medidas, Bueno avalia que os riscos estratégicos são hoje mais elevados do que na primeira rodada de tarifas. “Os Estados Unidos demonstram uma disposição crescente para avançar sobre essas demandas. As tarifas não são o principal elemento da competição global em curso, mas um instrumento dentro de uma estratégia mais ampla de afirmação da liderança norte-americana”, afirma.

Segundo ele, a expectativa é que Washington busque respostas rápidas do governo brasileiro, embora dificilmente consiga resultados imediatos. A experiência da primeira onda tarifária mostrou que a combinação de cautela e firmeza adotada pelo governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva produziu resultados favoráveis para o Brasil. Por isso, a tendência é que a controvérsia atual sirva como ponto de partida para negociações mais amplas entre os dois países.

Questionado sobre a influência dos encontros entre integrantes da família Bolsonaro e Donald Trump, Bueno afirma que a relação ajudou a intensificar a primeira onda de tarifas, mas não foi o fator determinante para sua adoção. Ele avalia que existem canais de interlocução entre aliados ideológicos de Trump e membros da família Bolsonaro, o que contribui para ampliar a visibilidade de determinadas pautas dentro da burocracia norte-americana.

No entanto, o pesquisador considera limitada a capacidade de influência direta da família Bolsonaro sobre uma eventual decisão da Casa Branca. No campo diplomático, porém, ele aponta que a atuação do grupo gera desconforto ao dificultar o diálogo entre representantes do governo brasileiro e autoridades dos Estados Unidos.

Apesar da escalada das tensões, Bueno considera improvável que o Brasil adote medidas de retaliação direta contra os Estados Unidos. Caso seja necessário responder a restrições comerciais, o país dispõe de instrumentos como a Lei da Reciprocidade Econômica, aprovada em 2025. Ainda assim, a estratégia mais provável, segundo ele, é ampliar a diversificação de mercados para reduzir a dependência da relação comercial com Washington.

Nesse cenário, o acordo entre Mercosul e União Europeia aparece como uma das principais alternativas para ampliar oportunidades comerciais e minimizar os impactos de uma postura mais agressiva dos Estados Unidos.

Para o pesquisador, a sucessão de medidas tarifárias evidencia um afastamento gradual entre as duas maiores economias das Américas. A instabilidade jurídica e regulatória nos Estados Unidos, segundo ele, tende a dificultar a expansão do comércio bilateral e pode estimular a redistribuição de investimentos e cadeias produtivas para outros mercados.

No plano político, o episódio também expõe os limites das tentativas recentes de aproximação entre os governos dos dois países. “Apesar da maior abertura dos canais de diálogo, as divergências estratégicas e os interesses domésticos continuam exercendo forte influência sobre a relação bilateral, reduzindo o espaço para avanços mais significativos no curto prazo”, conclui.

Fonte: correiobraziliense

Participe do nosso grupo no whatsapp clicando nesse link

Participe do nosso canal no telegram clicando nesse link

Assine nossa newsletter
Publicidade - OTZAds
Whats

Utilizamos cookies próprios e de terceiros para o correto funcionamento e visualização do site pelo utilizador, bem como para a recolha de estatísticas sobre a sua utilização.