Um novo medicamento oral para diabetes tipo 2 apresentou resultados promissores ao ajudar pacientes a controlar os níveis de açúcar no sangue e perder peso. Os dados foram apresentados nesta segunda-feira (8/6), durante o último dia do congresso de 2026, da Associação Americana de Diabetes (ADA), em Nova Orleans, pela pesquisadora Vanita Aroda, cientista do Hospital Mass General Brigham, nos Estados Unidos, e publicados simultaneamente na revista científica The Lancet.
O estudo, chamado Solstice, avaliou a elecogliprona, um medicamento da classe dos agonistas do receptor de GLP-1. Essa categoria de tratamento ganhou destaque nos últimos anos por ajudar tanto no controle da glicose quanto na redução do peso. Os resultados do ensaio mostraram que o medicamento foi capaz de reduzir significativamente os níveis de açúcar no sangue e promover perda de gordura em pessoas com diabetes tipo 2.
"As conclusões do nosso estudo reforçam o crescente potencial dos agonistas orais do receptor de GLP-1 para pessoas com diabetes tipo 2", afirmou Aroda. Segundo a pesquisadora, embora já existam tratamentos eficazes dessa classe, a forma de aplicação e os cuidados específicos podem atrapalhar o uso. "Ensaios clínicos rigorosos como o Solstice podem nos ajudar a avaliar medicamentos orais que podem ser igualmente eficazes para pacientes, superando essas limitações", explicou.
Atualmente, a maioria dos medicamentos à base de GLP-1 é aplicada por meio de injeções. Há também opções em comprimidos, como a semaglutida, mas seu uso exige que o paciente tome o medicamento em jejum e espere pelo menos 30 minutos antes de comer ou beber qualquer coisa. Nesse meio, a elecogliprona surge como mais uma alternativa oral que pode facilitar a adesão ao tratamento.
O estudo foi realizado em nove países e contou com a participação de 406 pessoas com diabetes tipo 2. Os voluntários receberam diferentes doses do medicamento ao longo de 26 semanas para que os pesquisadores pudessem avaliar sua eficácia e segurança.
Ao final do período, os resultados mostraram que até 89,6% dos participantes que usaram a elecogliprona atingiram a meta recomendada de controle da glicemia, medida pelo exame HbA1c. Entre aqueles que receberam placebo, esse índice foi de 24,9%. Além disso, até 72,3% dos pacientes tratados perderam pelo menos 5% do peso corporal, enquanto no grupo placebo apenas 20,2% dos voluntários emagreceram.
Mais adesão
Conforme Jamilly Drago, endocrinologista da clínica Metasense, em Brasília, a medicação oral em relação à injetável tem algumas vantagens, como para pacientes com medo de agulha. "A preferência do paciente é o que vai moldar a nossa escolha daqui para frente. É como se estivéssemos oferecendo um leque de opções, e ele pode optar pelo tratamento que considera melhor para si. A adesão na prática clínica é nosso maior objetivo."
Para Paula Fábrega, endocrinologista do Sírio-Libanês, em Brasília, a elecogliprona pode representar uma alternativa interessante para pessoas que apresentam resistência ao uso de injetáveis ou que têm problemas em manter os cuidados por conta da complexidade de algumas formulações orais atualmente disponíveis. "Na prática clínica, não é raro encontrarmos quem adia ou recusa terapias eficazes devido ao receio de aplicações subcutâneas. Além disso, pacientes que enfrentam dificuldades para seguir as orientações rigorosas da semaglutida em comprimido também podem se beneficiar de uma opção com administração mais simples. Dessa forma, a elecogliprona tem potencial para ampliar o acesso a tratamentos eficazes tanto para controle glicêmico quanto para redução de peso."
Durante o trabalho, os pesquisadores também observaram que os efeitos colaterais e o perfil de segurança foram semelhantes aos registrados em outros medicamentos da mesma classe já utilizados no tratamento do diabetes e da obesidade.
Aroda também lidera outro estudo importante, chamado Reimagine 1, que avaliou uma combinação de medicamentos conhecida como CagriSema, uma nova terapia combinada que une o agonista do receptor de amilina cagrilintida com a forma injetável de semaglutida. Os resultados, também apresentados durante o encontro da ADA, mostraram que até 87% dos participantes conseguiram atingir a meta recomendada de controle da glicemia.
"O objetivo central de cada um dos nossos ensaios clínicos é melhorar os resultados para os pacientes", destacou a pesquisadora. Para ela, os estudos reforçam a importância de desenvolver novas opções de tratamento que sejam eficazes, seguras e mais fáceis de usar, ajudando a melhorar a qualidade de vida das pessoas que convivem com o diabetes.
O desenvolvimento de agonistas orais de GLP-1 representa uma evolução importante no tratamento do diabetes tipo 2. Nos últimos anos, essa classe terapêutica transformou o manejo da doença por atuar não apenas no controle da glicemia, mas também no peso corporal e no risco cardiometabólico. A possibilidade de ampliar esses benefícios por meio de uma formulação oral pode aumentar o acesso ao tratamento e permitir uma abordagem mais individualizada para diferentes perfis de pacientes. A inovação não está apenas na molécula, mas na possibilidade de levar abordagens eficazes a um número maior de pessoas. No entanto, embora os resultados sejam promissores, ainda precisamos de estudos maiores e de acompanhamento mais prolongado para confirmar a segurança e a eficácia do medicamento. Também será importante avaliar seus efeitos sobre desfechos cardiovasculares e renais, além de entender como ele se comporta na prática clínica, fora do ambiente controlado dos ensaios. Questões como custo, acesso e posicionamento em relação às terapias já disponíveis também precisarão ser definidas.
Isabela Carballal, endocrinologista do Hospital Brasília Águas Claras, da Rede Américas
Dados apresentados durante a ADA 2026 e publicados nas revistas The New England Journal of Medicine e Nature Medicine reforçam o potencial do survodutida, um medicamento experimental utilizado no tratamento da obesidade e de alterações metabólicas associadas. Os resultados detalhados dos estudos de Fase III Synchronize-1 e Synchronize-MASLD indicam que a terapia foi capaz de promover redução significativa da gordura visceral e hepática, além de preservar massa magra durante a perda de peso.
No estudo Synchronize-1, que acompanhou adultos com obesidade ou sobrepeso sem diabetes tipo 2 por 76 semanas, a survodutida já havia demonstrado uma perda média de peso de 16,6%. Agora, uma análise de participantes submetidos à ressonância magnética mostrou resultados adicionais relevantes para a saúde metabólica.
Segundo os dados apresentados no congresso, os pacientes tratados com a maior dose de survodutida registraram redução média de 34% da gordura visceral, considerada um dos principais fatores de risco para doenças cardiometabólicas. A análise também revelou que apenas 10,8% da perda total de tecido corporal correspondeu à massa magra, sugerindo preservação muscular durante o emagrecimento.
Outro destaque foi a redução de 63,1% da gordura hepática em relação aos níveis basais após 76 semanas de tratamento. O achado reforça o potencial da molécula para atuar sobre alterações metabólicas frequentemente associadas à obesidade, incluindo o acúmulo excessivo de gordura no fígado.
Gabriel Fagundes, diretor médico da Boehringer Ingelheim, destaca que, para pessoas que vivem com obesidade, ficou claro no ADA 2026 que a discussão precisa ir além da balança, pois a perda de peso não captura toda a complexidade da condição. "Os dados do ADA 2026 com a survodutida reforçam esse entendimento ao mostrarem o potencial da molécula em atuar sobre diferentes componentes da obesidade, papel protetor da perda de massa magra com uma perda preferencial de gordura visceral — associada a maior risco cardiovascular e da saúde metabólica — incluindo desfechos como pressão arterial e diabetes, dentro do programa Synchronize."
Os resultados foram complementados pelos dados do estudo Synchronize-MASLD, que avaliou adultos com obesidade ou sobrepeso e doença hepática esteatótica associada à disfunção metabólica. Após 48 semanas, cerca de 61% dos participantes tratados com survodutida alcançaram normalização da gordura hepática, em comparação com 5,7% dos pacientes que receberam placebo. (IA)
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