Londres* — O aumento dos investimentos para voltados para a transição energética nos países emergentes dependerá fundamentalmente do setor privado, na avaliação de Ana Toni, CEO da 30ª Conferência sobre mudanças climáticas da Organização das Nações Unidas (COP 30), realizada no Brasil, em novembro do ano passado, e que, neste ano, atravessa a transição para a COP 31, que será sediada na Turquia. Segundo ela, metade dos recursos precisam ser financiados pelo setor privado para que ocorra um “aumento orgânico” dos investimentos.
Em evento paralelo à Semana de Ação Climática de Londres, Ana Toni, reforçou, nesta quinta-feira (25/06), que o setor privado precisa responder por mais da metade desses recursos. Ela lembrou que, em 2023, o volume de recursos internacionais mobilizados para países emergentes somaram US$ 200 bilhões, mas o objetivo é atingir US$ 1,3 trilhão por ano até 2035. Entretanto, desses US$ 200 bilhões, cerca de 80% são oriundos de governos e não do setor privado.
“E esse é o verdadeiro desafio. Precisamos chegar a US$ 1,3 trilhão e, para isso, precisamos do setor privado. Essa é a tarefa que assumimos com o roteiro de Baku a Belém”, defendeu Ana Toni. Ela participou de um painel especial no seminário “Diálogos de Liderança COP 30-COP 31: Ampliando o Financiamento e os Seguros para um Impacto Global”, organizado pela UNPE-FI, Iniciativa Financeira para o Meio Ambiente do Programa da Organização das Nações Unidas (ONU) promovido pela UNEP-FI, iniciativa financeira do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, em parceria com a Associação Brasileira das Entidades do Mercado Financeiro e de Capitais (Anbima), Federação Brasileira de Bancos (Febraban) e Confederação Nacional das Seguradoras (CNSeg).
Durante a sua palestra, ela lembrou que, desde a presidência do Brasil no G20 – grupo das 19 economias mais desenvolvidas e emergentes do planeta mais a União Europeia e a União Africana –, há um trabalho mais próximo entre o setor financeiro e o de meio ambiente. A meta para o financiamento internacional das economias em desenvolvimento é atingir US$ 1,3 trilhão até 2035, sendo que, em 2023, esse montante chegou a US$ 200 bilhões, dado que também foi destacado por Remco Fischer, Head de Clima da UNEP-FI no evento pouco antes de Ana Toni.
Contudo, em 2024, esse valor acabou recuou para US$ 175 bilhões, conforme relatório recente da Climate Policy Initiative (CPI). O estudo da CPI informa ainda que os valores globais no financiamento climático ultrapassaram US$ 2 trilhões, em 2024, dos quais US$ 734 bilhões foram aplicados apenas pela China e os países emergentes responderam por US$ 390 bilhões do total dos investimentos.
A CEO da COP 30, contudo, destacou que o processo de mapeamento mais detalhado dos investimentos ainda está em curso, pois os dados ainda são muito fragmentados. “Ainda não sabemos exatamente quais instrumentos serão utilizados, mas é por isso que precisamos que essa parceria, que foi iniciada, continue nas COPs seguintes”, disse.
De acordo com Ana Toni, ainda haverá um balanço global a partir da COP 30, e esse será um momento muito importante para os países envolvidos avaliarem o que já foi alcançado e e o que ainda é necessário. Os novos cálculos estão sendo feitos monitorando vários investimentos na transição energética, como paineis de energia solar, mas, por exemplo, no caso do Brasil, o governo brasieliro está conseguindo levantar mais recursos por meio dos leilões do Ecoinvest e das mudanças na regulamentação para dar mais segurança para os investidores. “Países que estão tentando e estão começando e e esperamos que vamos conseguir ter um crescimento orgânico nos próximos anos. O calor de Londres nesta semana mostra que não tem escolha e há muita inovação no setor financeiro para financiar a transição energética”, afirmou, em conversa com jornalistas após a palestra.
A executiva ressaltou ainda que o Acordo de Paris já estabeleceu as metas para que os países invistam no combate às mudanças climáticas. “Esta é uma nova década, uma década de implementação, e essa implementação é uma responsabilidade compartilhada — não apenas dos governos, mas de todos nós: setor privado, instituições financeiras, sociedade civil, bancos multilaterais de desenvolvimento; todos juntos. “Se não fizermos isso, não alcançaremos as metas que estabelecemos”, destacou. Segundo ela, 146 países elaboraram as suas NDCs, que são as Contribuições Nacionalmente Determinadas, que são os compromissos de cada país em realizar investimentos para o cumprimento das metas previstas no Acordo de Paris a fim evitar aumento da temperatura global em até 1,5 grau Celsius.
No painel de abertura, o presidente da Febraban, Isaac Sidney, reforçou o compromisso do setor financeiro para o desenvolvimento de parcerias para avanços na agenda climática. “Bancos, mercado de capitais e seguradoras têm condições de converter ambição climática em investimentos concretos, ao estruturar operações de crédito, proteção financeira e instrumentos de mercado capazes de mobilizar capital em grande escala”, disse Sidney. Ele destacou avanços da agenda de sustentabilidade do setor bancário e citou, entre eles, a revisão da da taxonomia voltada para as finanças sustentáveis, a mensuração padronizada de emissões financiadas e o compromisso de alcançar emissões líquidas zero até 2050.
Dyogo Oliveira, presidente da CNSeg, reconheceu que o desafio das mudanças climáticas que começam já estão acontecendo, com a onda de calor extremo em Londres. “E, olhando do ponto de vista do setor de seguros, ele é o que sente o primeiro impacto financeiro de tudo, por isso, é preciso criar uma capacidade de financiamento contínuo e de larga escala de projetos, pois o setor segurador atua em todas as etapas, desde a cobertura de risco físico do terreno e como investidor institucional. As seguradoras são importantes investidores institucionais e têm capacidade de mobilizar recursos para financiamento de projetos”, explicou ele, defendendo um trabalho mais coordenado entre mercado financeiro, mercado de capitais e setor de seguros.
“Isso vai gerar mais condições financeiras necessárias para desenvolvermos um portfólio de projetos. Existe uma enormidade de desejos de fazer coisas, mas isso não é um projeto financiado. É algo que temos que identificar e endereçar adequadamente os riscos da vida de um projeto. E isso envolve os instrumentos de gestão de riscos adequados e principalmente canalizar os recursos necessários”, complementou.
Segundo ele, essa parceria está avançando e a experiência da Casa do Seguro na COP 30 foi nessa direção, e ela terá continuidade na COP 31, na Turquia. “Espero que esse trabalho que está sendo feito e que realmente, em Belém, teve um capítulo muito importante, mas que certamente precisa ter continuidade e precisa do nosso esforço, do nosso tempo e da nossa dedicação permanente”, emendou.
Ana Toni, por sua vez, na conversa com jornalistas, admitiu que segue bastante otimista e elogiou a união do setor financeiro e das seguradoras para buscarem soluções de financiamento de soluções voltadas para mitigar os riscos climáticos. “Eu sou otimista. Não é uma questão de estar ou ser. Esse mutirão do setor privado, do setor financeiro e do governo vamos olhar junto e ver mais soluções e certamente, vamos ver muito mais avanços nesse segmento”, acrescentou.
*A jornalista viajou a convite da CNSeg
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