Não se via um terremoto tão poderoso na Venezuela desde 1900. O medo e o horror vivenciados às 18h05 pelo horário local de quarta-feira, 25/6 (19h05 em Brasília) deram lugar à busca desesperada por sobreviventes. Imerso em uma crise e sob estado de emergência nacional, o país corria contra o tempo para salvar vidas. Entre os mortos, há pelo menos dois brasileiros, segundo o Itamaraty. Nas horas que se sucederam ao duplo sismo — de magnitudes 7,2 e 7,5 na escala Richter (aberta, raramente chega a 9) —, a Defesa Civil e bombeiros concentravam esforços em várias partes de Caracas, principalmente em La Guaira, a 30km do centro.
A cidade costeira foi a mais afetada pela tragédia e teve dezenas de prédios reduzidos a pó. Segundo estimativa da ONU, 100 edifícios desabaram. A presidente da Venezuela, Delcy Rodríguez, colocada no poder pelos EUA depois da captura de Nicolás Maduro, visitou a região e declarou La Guaira "zona de desastre". A agência de notícias France-Presse (AFP) registrou a ocorrência de saques em estabelecimentos comerciais.
Os perfis de venezuelanos nas redes sociais transformaram-se em "portais de desaparecidos" e expuseram uma corrente de empatia, com a arrecadação de alimentos e de donativos. A solidariedade se estendeu à comunidade internacional. Poucas horas depois do duplo terremoto, vários países ofereceram ajuda no resgate às vítimas, incluindo o Brasil. Nas primeiras 20 horas desde o terremoto, a Venezuela enfrentou 138 réplicas.
Até às 23h15 desta quinta-feira (25/6), as autoridades confirmavam pelo menos 235 mortos e 4.300 feridos, mas admitiram a possibilidade de o número de vítimas chegar a milhares. Uma plataforma criada na internet para reunir dados sobre o desastre citava 38.058 desaparecidos.
O Ministério das Relações Exteriores do Brasil confirmou que dois brasileiros morreram. "O MRE informa, com grande pesar, o falecimento de uma cidadã e um cidadão brasileiros", afirma a nota, segundo a qual o governo presta assistência às famílias das vítimas. As identidades dos brasileiros mortos não foram divulgadas.
Delcy Rodríguez convocou para a noite desta quinta-feira uma "jornada de oração ecumênica nacional" em intenção das equipes de salvamento e de resgate. A presidente reuniu-se com integrantes do Estado-Maior e revisou um plano de resposta à catástrofe para a área de La Guaira. Ela ordenou a rápida mobilização de forças de segurança do Estado, maquinaria pesada para a remoção de escombros, restabelecimento de vias prioritárias para o resgate de sobreviventes e atenção à doação de alimentos, águas e colchões aos desabrigados. Um comunicado atribuído a Maduro, preso nos Estados Unidos desde 3 de janeiro, onde aguarda julgamento, conclamou o povo da Venezuela à unidade. "Hoje, a palavra é uma só: máxima união, máxima solidariedade, máxima ação", escreveu. "Nesta hora difícil, chamamos à união nacional, à serenidade e ao amor concreto: ajudar, proteger, partilhar, levantar e reconstruir."
Gleismar Carpio, 26 anos, vive no quarto piso de um prédio de oito andares, em um conjunto residencial do bairro La Pastora, em Caracas. Ela classificou o que viveu na quarta-feira como uma "experiência profundamente traumática". "Moro no quarto andar e, quando o terremoto ocorreu, eu estava com o meu marido, minha prima, minha sobrinha — de dois anos — e um idoso. O movimento foi tão violento, que tornou-se incrivelmente difícil manter o equilíbrio", contou ao Correio.
Ao abandonar o prédio, percebeu que uma das escadarias da torre desabou por completo. "Em meio ao pânico generalizado, algumas pessoas saíram correndo, outras conseguiram sair pelas escadas que ficaram de pé. Para piorar, os serviços de telefonia colapsaram imediatamente, causando enorme angústia", disse.
"Perdas incalculáveis"
Em Chacao, município da Região Metropolitana de Caracas, Pilar Gutiérrez, 57 anos, relatou que no bairro de Los Palos Grandes pelo menos quatro prédios caíram. "Há perdas humanas incalculáveis. Na zona histórica do município, os edifícios são muito velhos", afirmou à reportagem. Pilar e vizinhos passaram a madrugada de ontem ao ar livre, com receio de terremotos e réplicas. "Nós nos apoiamos. Sobre uma mesa na rua, colocamos sanduíches, suco, café, remédios e outros alimentos. Um dos vizinhos teve um pico de pressão arterial e lhe demos um medicamento até a chegada da ambulância. Isso é solidariedade humana, a qual temos aqui", acrescentou.
Professora da Universidad Central de Venezuela (UCV), Karenia Cordova contou ao Correio que muitos dos venezuelanos se preparavam para assistir ao jogo entre Brasil e Escócia, enquanto ela ministrava uma aula à distância, no bairro de Montalbán 2, em Caracas. "Eu me levantei para buscar um copo d'água, quando senti uma vibração, que se intensificou muito fortemente. As coisas começaram a oscilar. O primeiro momento foi terrível. O pior veio em seguida. Eu me agarrei a uma cristaleira da sala para evitar que pratos e peças de vidros saíssem voando. Nunca enfrentei um movimento com tanta intensidade, apesar de ter passado por outros terremotos, como o de 1967."
Ao tentarem fugir, ela e familiares perceberam que a porta tinha sido bloqueada por escombros. "Quando acabávamos de abrir o caminho, o segundo terremoto nos golpeou. As minhas pernas tremiam, o chão se movia como em ondas e tudo se abria, portas e janelas. Quase não houve intervalo. No segundo terremoto, pude escutar o rugido da terra, os gritos das pessoas e objetos quebrando."
O apartamento de Karenia, no 14º andar, ficou parcialmente inundado. "Começamos a receber mensagens de vizinhos de um pequeno apartamento que temos em La Guaira. Soubemos que o prédio caiu por completo. Um dos conhecidos buscava os filhos, que não respondiam. Senti calafrios e horror. Perdi amigos e vizinhos. Nós íamos a La Guaira na quarta-feira. Decidimos ficar em Caracas."
"No momento do terremoto, eu estava com meu marido, minha prima, minha sobrinha de dois anos e um idoso. Os movimentos foram extremamente bruscos, e os tremores, tão fortes, que foi muito difícil manter o equilíbrio para sair do apartamento. Ver as paredes se desprendendo, sentir a instabilidade das passarelas e notar as fendas que apareciam nas paredes foi aterrador."
Gleismar Carpio, 26 anos, moradora do bairro La Pastora
"Eu e minha esposa estávamos em nosso apartamento, no sudeste de Caracas. Foram segundos de terror. O apartamento moveu-se bastante e objetos caíram. Quando o terremoto acabou, descemos sete andares e nos reunimos com vizinhos. A televisão não informava o que tinha acontecido. Durante o dia de hoje (ontem), pudemos ver a dimensão dessa tragédia. Em áreas menos afortunadas, como Guaira, no litoral, há muita gente soterrada nos escombros. Precisamos de muita ajuda e solidariedade. É uma tragédia imensa, que enluta o nosso país."
Joaquín Benítez Maal, 67 anos, professor, morador de Baruta (sudeste)
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