16 de Julho de 2026

Após os terremotos, Venezuela enfrenta o desafio da reconstrução


O pior terremoto em 100 anos a atingir a Venezuela transformou o estado litorâneo de La Guaira em zona de guerra. Pelo menos 189 edifícios colapsaram por completo e 774 imóveis foram afetados pela catástrofe, que pode ter matado dezenas de milhares de pessoas. Uma estimativa preliminar da Organização das Nações Unidas (ONU) sugere prejuízos de cerca de US$ 6,7 bilhões (ou R$ 34,5 bilhões) — valor equivalente a 6% do Produto Interno Bruto (PIB) venezuelano. Reconstruir uma nação que antes mesmo da tragédia enfrentava uma grave crise econômica e humanitária, onde 8 milhões de pessoas necessitavam de assistência, será uma tarefa complexa, segundo especialistas consultados pelo Correio.

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A ONU apelou à comunidade internacional para que contribua com US$ 296 milhões (cerca de R$ 1,5 bilhão), montante a fim de atender às necessidades socioeconômicas de 1,3 milhão de cidadãos. A situação torna-se ainda mais complicada devido à falta de legitimidade da presidente Delcy Rodríguez, colocada no poder pelos Estados Unidos depois que o ditador Nicolás Maduro foi capturado por forças especiais americanas, em 3 de janeiro. 

De acordo com a socióloga venezuelana Ana Carrasquero, professora da Universidad Católica Andrés Bello (UCAB), o primeiro desafio da reconstrução da Venezuela é compreender que ela vai além de erguer moradias, pontes e rodovias. "Isso tem que ocorrer, mas não é suficiente. O duplo terremoto golpeou um país que acumulava uma profunda crise de infraestrutura, de serviços, de institucionalidade e de confiança. Na realidade, vejo cinco grandes desafios. O primeiro é saber, com precisão, o que foi destruído e quais as reais prioridades. Se não tivermos dados, a reconstrução pode se converter em improviso, clientelismo e  atribuição discricionária de recursos. O segundo envolve a proteção do direito de propriedade, que precisa ser parte da solução. A propriedade fornece segurança à família, permite acesso ao crédito, facilita investimentos privados e protege os cidadãos frente a abusos", explicou. 

O terceiro desafio importante, segundo Carrasquero, é o de reconstruir os serviços essenciais, como o abastecimento de água, o fornecimento de eletricidade e a conexão com a internet. "Se as paredes das escolas são reconstruídas e os serviços deixam de ser retomados, as comunidades não podem voltar a funcionar", observou. O quarto desafio, avalia, tem a ver com a recuperação da confiança dos venezuelanos. "A Venezuela precisa de recursos enormes, mas nenhum ator sério, seja ele nacional, seja internacional, apostará numa reconstrução se não houver regras claras e auditoria."

A socióloga acrescentou que o último desafio é o de evitar que o processo de reerguer um país seja monopolizado pelo Estado. "É preciso incorporar os municípios e comunidades. O Estado, sob condições normais, e não de uma ditadura, deve ser o coordenador e garantidor de regras, mas não pode fazer tudo como se fosse uma lista de desejos. Trata-se de algo bastante complicado, pois as pessoas que detêm o poder são as mesmas que nos levaram a essa situação", concluiu Carrasquero. 

Por sua vez, o economista venezuelano Asdrúbal Oliveros, morador de Caracas, alertou que a principal dificuldade para a reconstrução será institucional. Ele lembrou que um processo dessa magnitude requer um Estado com capacidade de coordenação, transparência e execução — áreas nas quais a Venezuela apresenta enormes debilidades. "Soma-se a isso o desafio financeiro. Falamos de necessidades de reconstrução que poderiam oscilar entre US$ 12 bilhões e US$ 15 bilhões em uma economia cujo Produto Interno Bruto (PIB) é de US$ 110 bilhões. O Estado não dispõe de espaço fiscal para assumir tal esforço", disse ao Correio.

Oliveros também vê o desafio do capital humano, ante o êxodo de milhões de trabalhadores e profissionais ao longo da última década. "Engenheiros, arquitetos, técnicos, pessoal da área de saúde e gerentes serão indispensáveis para a reconstrução. Recuperar esse talento ou atrair parte da diáspora será um fator determinante. Ainda considero importante coordenar o setor privado, a sociedade civil, os organismos multilaterais e, eventualmente, governos estrangeiros. Nenhum ator poderá enfrentar somente uma tarefa desta dimensão." 

Porta-Voz do Observatório da Venezuela da Universidade de Rosário, em Bogotá, Ronal Rodríguez demonstra ceticismo em relação à eficácia da recuperação do país. Na opinião dele, enquanto a dinâmica ditatorial persiste, com apoio e tutela dos Estados Unidos, os terremotos mostraram que a capacidade da presidente Delcy Rodríguez de administrar o país é muito limitada. Ronal avaliou a urgência de revestir as autoridades com legitimidade, ao ressaltar que o governo será obrigado a realizar uma série de ações que implicam em aceitação popular e que podem dar lugar a conflito e tensão. "Durante as próximas semanas ou meses, os detentores do poder na Venezuela terão que tomar decisões, como a distribuição territorial para a dinâmica de reconstrução de moradias, a escolha dos edifícios que deverão ser demolidos e o fornecimento de serviços essenciais, principalmente um abrigo para as pessoas sem-teto", declarou. 

Para mensurar o tamanho do problema, o estudioso citou que, em 2007, quando o viaduto entre Caracas e La Guaira sofreu avarias, o PIB venezuelano caiu 3%. No caso atual, o Aeroporto Internacional de Maiquetía Simón Bolívar apresenta problemas estruturais importantes, o que demanda uma construção de política coordenada. Segundo Ronal, à medida que os dias passam, os venezuelanos começam a experimentar tensão.

Ele classificou o apoio dos EUA como "latente" e apontou os temas da moradia e de serviços como os principais desafios para uma população que se encontrava em emergência humanitária antes mesmo dos terremotos. "Nas próximas semanas, a Venezuela poderá experimentar situações muito complexas, sobretudo em temas de saúde. O surgimento de epidemias, produto do manejo de cadáveres, e uma série de circunstâncias, em um país que tem dificuldade no acesso à água potável e à energia elétrica, tornarão a crise extremamente complexa. Sem um governo legítimo, a tensão social, o mal-estar e a ira da população podem complicar ainda mais o cenário", disse Ronal. 

 

"A reconstrução não pode ser feita com os mesmos métodos que levaram à deterioração do país. A meta não deve ser apenas reconstruir a infraestrutura física, mas as capacidades institucionais mínimas. Precisamos agir em vários níveis, como criar um registro público e verificável de danos, além de segurança jurídica para os indivíduos, que precisam ter a garantia de seus direitos. O fundo de reconstrução exige governança independente e auditoria externa. O Estado deverá abrir as portas. O sucesso dependerá menos da retória política e mais de medidas concretas: regras, dados, direitos de propriedade, transparência e coordenação."

Ana Carrasquero, socióloga da Universidad Católica Andrés Bello (UCAB), em Caracas

 "A reconstrução deve converter-se em oportunidade para reconstruir instituições e alcançar acordos políticos que permitam formar um governo com legitimidade democrática e capacidade de impulsionar reformas econômicas e institucionais. Sem estabilidade política e segurança jurídica, será muito difícil atrair financiamento, investimento privado e cooperação internacional. A resposta inicial ao terremoto ensinou uma lição importante: diante das limitações do Estado, o setor privado, a sociedade civil e as comunidades demonstraram capacidade de organização e resposta muito maior que a esperada."

Asdrúbal Oliveros,

econonomista venezuelano,

morador de Caracas

 "A recuperação segue como um ponto complexo, com a dinâmica imposta pelos terremotos e sem uma legitimidade que permita garantir que as decisões das autoridades tenham apoio da população. As formas utilizadas pela Revolução Bolivariana ao longo de 27 anos, em vez de facilitar a tomada de decisões, afetarão a reconstrução. Tomam-se decisões que não atendem dinâmicas econômicas, mas questões político-ideológicas. Parte da ira e do mal-estar do povo se deve ao fato de o chavismo ter priorizado decisões ideológicas sobre a vida e a necessidade dos venezuelanos." 

Ronal Rodríguez, porta-voz do Observatório da Venezuela da

Universidade de Rosário, em Bogotá

Fonte: correiobraziliense

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