16 de Julho de 2026

Trump amplia pressão sobre a Otan antes de reunião decisiva


Líderes dos 32 países da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) reúnem-se nesta terça-feira e nesta quarta-feira na capital da Turquia, Ancara, com as atenções voltadas para o que sairá da bagagem de Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, força-motriz e principal membro da aliança militar. A reunião coincide com um momento crítico na guerra da Ucrânia, sob ofensiva aérea concentrada da Rússia e carente de munição para os sistemas de defesa antimísseis. Dias antes de embarcar, Trump havia, uma vez mais, criticado os parceiros por não apoiarem efetivamente os EUA na guerra contra o Irã, e reiterou a ameaça, pendente desde seu primeiro mandato na Casa Branca (2017-2021), de reduzir a presença militar norte-americana na Europa e deixar os sócios na posição de custearem a própria defesa.

O secretário-geral do bloco, o ex-premiê holandês Mark Rutte, prometeu "dezenas de bilhões de dólares" para reforçar as capacidades da aliança. "Anunciaremos novos contratos que nos permitirão adquirir os equipamentos essenciais para a dissuasão e a defesa", declarou, durante entrevista coletiva na capital turca. Rutte também abordou a situação da Ucrânia. "Enquanto Kiev continua defendendo sua soberania, os aliados e parceiros da Otan devem seguir garantindo que (a Ucrânia) receba o que necessita", afirmou, para depois pedir que "todos os aliados assumam plenamente suas responsabilidades".

Rutte exercita um número de equilibrismo entre as pressões de numerosos países-membros, que cobram apoio mais efetivo de Washington na Ucrânia, e as seguidas baterias de críticas de Trump, que nos últimos dias voltou a apontar o dedo para os aliados pela ausência no conflito iniciado por EUA e Israel com o Irã, em 28 de fevereiro — em particular, a recusa de enviar forças navais para ajudar na reabertura do Estreito de Ormuz, vital para os mercados internacionais de petróleo.

Falando à imprensa norte-americana, o presidente disse achar "ridículo" que o país mantenha uma "relação unilateral" com a Otan, "sem reciprocidade". Em sua plataforma nas redes sociais, a Truth Social, Tump escreveu que os aliados "não estavam lá por nós". Desde o primeiro mandato, o magnata republicano cobra dos parceiros europeus que elevem seus gastos com defesa, e chegou a ameaçar a cobrança de colaborações de quem solicite a proteção de tropas e equipamentos dos EUA. Sob a pressão da Casa Branca, os líderes da aliança aceitaram, no ano passado, aumentar progressivamente os gastos militares até chegar a 5% do PIB, em 2035.

O professor de relações internacionais Gunther Rudzit, da ESPM, acredita que a intervenção do presidente dos EUA em Ancara será "recheada de críticas, ameaças, principalmente pelo fato de os europeus não terem entrado ao lado dos EUA na guerra contra o Irã" — como foi antecipado por pronunciamentos recentes do secretário de Defesa, Pete Hagseth. "Os governantes europeus já estão contando com isso", observa.

O estudioso não acredita, porém, que Trump avance na direção de um rompimento formal dos EUA com a aliança atlântica, como chegou a ameaçar algumas vezes. "Oficialmente, não vai romper, porque essa decisão precisa passar pelo Congresso", pondera. "Mesmo que os tenham maioria, há muitos deputados e muitos senadores republicanos (governistas) que continuam apoiando a Europa, a permanência do país na Otan", explica Rudzit. Ele, no entanto, aposta que "deve diminuir a presença de soldados e equipamentos norte-americanos na Europa".

Os desencontros entre Washington e os governos do Velho Mundo sobre Ucrânia e Oriente Médio, somados à política externa agressiva da Casa Branca, aceleram os passos de países como Alemanha e França na direção de maior autonomia no terreno da defesa — ainda que uma ruptura formal não esteja sequer entre as opções em estudo. "Eles estão agindo nesse sentido de se defenderem sozinhos, há até a discussão sobre um 'guarda-chuvas' nuclear francês", diz o especialista da ESPM. Um fundo de 500 bilhões de euros foi criado para financiar o reforço de um sistema europeu de defesa diante da ameaça identificada na Rússia de Vladimir Putin. "Os europeus já não contam proteção garantida dos EUA, mesmo num governo pós-Trump", avalia Rudzit.

Ele entende que a desarmonia na Otan interessa em primeiro lugar justamente ao Kremlin, embora não seja indiferente para a China. "No seu cálculo estratégico, Putin pode achar que uma Europa sem os EUA não teria nem força, nem vontade suficientes para se defender", afirma. "Isso, sem dúvida, ajuda a Rússia."

Fonte: correiobraziliense

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