Pesquisadores brasileiros descobriram um composto à base de cobre que pode se tornar uma nova arma contra o câncer de ovário. Em testes de laboratório, ele se mostrou 36 vezes mais potente que a cisplatina, um dos principais medicamentos usados hoje na quimioterapia contra esse tipo de câncer.
A descoberta é do Laboratório de Cristalografia do Instituto de Física de São Carlos (IFSC), da USP, e foi publicada na revista científica ACS Omega. O resultado abre caminho para uma nova classe de compostos capazes de enfrentar um dos cânceres mais difíceis de detectar.
A equipe criou cinco novos compostos de cobre em laboratório e testou seu efeito contra células de câncer de ovário, mama e pulmão. Para isso, uniram o cobre a moléculas orgânicas, chamadas de ligantes, e avaliaram como essas combinações se comportavam diante das células tumorais.
Um dos compostos se destacou justamente contra as células de câncer de ovário. Nos testes, ele mudou a forma dessas células, reduziu sua capacidade de se multiplicar em colônias e provocou a morte das células cancerígenas, com efeitos que aumentavam de acordo com a dose aplicada.
O composto também conseguiu se ligar ao DNA das células tumorais sem quebrá-lo. Essa interação, segundo os pesquisadores, distorce a estrutura do material genético e atrapalha processos essenciais para a célula cancerígena sobreviver e se multiplicar.
Hoje, a cisplatina é um dos medicamentos mais usados no tratamento de diversos tipos de câncer. Ela age formando ligações diretas com o DNA, o que impede a célula tumoral de se replicar, um mecanismo já bem conhecido pela ciência. O problema é que ela também traz efeitos colaterais fortes e, com o tempo, alguns tumores desenvolvem resistência a ela.
É por isso que cientistas do mundo todo buscam alternativas baseadas em outros metais. O novo composto de cobre parece agir de um jeito mais sofisticado: ele ataca o DNA da célula tumoral de várias formas ao mesmo tempo, se encaixando entre as bases genéticas, criando atrações elétricas e reconhecendo pontos específicos da dupla hélice.
Mesmo em fase inicial, a descoberta é promissora porque mira um câncer especialmente traiçoeiro: o de ovário é o câncer ginecológico mais difícil de diagnosticar. Segundo dados da Associação de Combate ao Câncer de Ovário e Doenças Ginecológicas (ACCO), apenas 43% das mulheres sobrevivem mais de cinco anos após o diagnóstico — principalmente porque a doença costuma ser descoberta tarde. Ele é o sétimo tipo de câncer mais comum entre mulheres no mundo, e ainda não existe nenhum exame de rotina capaz de detectá-lo com precisão.
Além do IFSC-USP, o estudo reuniu pesquisadores da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), da Embrapa e da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), somando conhecimentos de química, cristalografia, modelagem molecular e biologia. Agora, a pesquisa está sendo ampliada em parceria com o Centro de Inovação Teranóstica em Câncer (CancerThera), da Unicamp, e com o Hospital das Clínicas, para entender melhor como o composto age no organismo e avaliar seu potencial de uso futuro no tratamento de pacientes.
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