O fator masculino é responsável pela metade dos casos de infertilidade entre casais, mas ainda pouco se sabe sobre a dificuldade de alguns homens de produzir espermatozoides. A lacuna começa a ser preenchida por um estudo com células-tronco de humanos e macacos, implantadas em camundongos.
A combinação pode parecer estranha, mas, ao manipular essas estruturas geneticamente, os autores, da Universidade da Pensilvânia, nos Estados Unidos, conseguiram formar, no roedor, tecidos semelhantes ao testículo, abrindo caminho não só para a compreensão do problema como para o desenvolvimento de técnicas de reprodução mais aprimoradas no futuro.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que uma em cada seis pessoas enfrentará infertilidade em algum momento da vida. Os mecanismos que levam a essa condição em homens não são bem compreendidos porque, hoje, faltam modelos capazes de reproduzir a fabricação de espermatozoides em laboratório. Segundo o estudo, publicado na revista Cell Stem Cell, o novo sistema permite acompanhar, quase em tempo real, como as células evoluem, quais genes são ativados em cada fase e onde o desenvolvimento pode falhar.
Embora desenvolvido para ser um modelo de estudo, autores e especialistas acreditam em utilidades clínicas. “Em um cenário futuro e ainda hipotético, a tecnologia poderia beneficiar principalmente pacientes com ausência de espermatozoides por falhas na formação das células germinativas, especialmente alguns casos de azoospermia não obstrutiva”, comenta o geneticista Paulo Zattar Ribeiro, de São Paulo. “Também poderia ser considerada para homens que perderam a fertilidade após quimioterapia ou radioterapia e que não conseguiram congelar sêmen anteriormente, além de meninos submetidos a tratamentos gonadotóxicos antes da puberdade, quando ainda não havia espermatozoides maduros disponíveis para preservação”, diz.
Tatianna Ribeiro, ginecologista, obstetra e especialista em reprodução humana da Clínica REhGio, em Brasília
O que pode mudar na prática clínica ao se produzir espermatogônias humanas em laboratório com células-tronco?
Esse trabalho representa um passo importante para transformar a forma como tratamos algumas causas de infertilidade masculina. Hoje, quando um homem não produz espermatozoides adequadamente, frequentemente não conseguimos identificar exatamente em que etapa da espermatogênese ocorreu a falha. Com esse estudo, passa a ser possível reproduzir em laboratório várias fases iniciais do desenvolvimento das células germinativas humanas, permitindo estudar doenças antes praticamente inacessíveis. Porém, o estudo não tem um impacto imediato na prática clínica, já que não conseguiu produzir espermatozoides funcionais.
Quais são os principais desafios científicos e de segurança que ainda precisam ser superados antes de pensar em uma aplicação prática?
Os desafios ainda são enormes, importantes e variados. O primeiro deles é que o estudo chegou apenas até fases iniciais da espermatogênese, não obtiveram espermatozoides viáveis. Outro aspecto fundamental é provar que esses gametas são capazes de gerar descendentes saudáveis ao longo de várias gerações.
Além disso, será necessário ajustar alguns dados clínico-laboratoriais que precisam de comprovação.
Se essa tecnologia evoluir até permitir a produção de espermatozoides funcionais em laboratório, quais as implicações éticas e regulatórias para a reprodução assistida?
Do ponto de vista regulatório, provavelmente seria necessário criar normas específicas para controle de qualidade dos gametas que forem produzidos em laboratório, testes genéticos, obrigatórios, acompanhamento de longo prazo das crianças nascidas vivas, e sempre fiscalizar bem a certificação dos laboratórios produtores dessas células. Já sob o ponto de vista ético, penso em algumas questões: até que ponto seria aceitável gerar gametas a partir de células da pele ou do sangue de uma pessoa? Quem poderia ter acesso a essa tecnologia? Como precificar esta técnica? Quais seriam os limites para manipulação?. (PO)
Utilizamos cookies próprios e de terceiros para o correto funcionamento e visualização do site pelo utilizador, bem como para a recolha de estatísticas sobre a sua utilização.