Foi com uma sensação agridoce que Alok retornou a Londres, em junho, para abrir sua próxima turnê, Rave the World. Das mesmas calçadas onde agora seus fãs aguardavam a abertura das portas da O2 Academy, casa de shows no lendário bairro de Brixton, o DJ recolhia bitucas de cigarro em 2010, quando se mudou para a capital britânica com o sonho de viver de música.
Ele e o irmão, Bhaskar, tinham começado a tocar juntos e viram algumas faixas terem bom desempenho bem em plataformas de streaming voltadas à música eletrônica. Decidiram mudar-se para Londres, atraídos por um mercado mais aberto ao gênero. Mas os planos não saíram como o esperado, e tudo o que Alok conseguiu para se manter foi um emprego de barback, uma espécie de assistente de barman.
"Vir para cá me dá até alguns gatilhos, sabe? Naquele momento, eu limpava o chão enquanto o DJ tocava, recolhia as bitucas de cigarro da rua enquanto as pessoas ficavam na fila. Muitos brasileiros vêm para cá com um sonho, acabam ralando muito, mas eu não dei conta e voltei para o Brasil", ele relembrou, em entrevista à BBC News Brasil, antes de subir ao palco.
Esse tipo de trabalho, porém, não lhe era estranho. Foi o mesmo caminho que seus pais, Ekanta e Swarup — que mais tarde se tornariam nomes seminais do psytrance, subgênero psicodélico da música eletrônica, no Brasil — trilharam. A mãe se mudou para Orlando, levando os filhos, para trabalhar como faxineira em uma boate. Foi ali que conheceu o psytrance e decidiu começar a tocar.
"Meu pai foi visitar a gente e acabou curtindo também. Eles começaram a pegar discos de vinil, equipamento de som, levar para o Brasil e tocar para 30 pessoas. Era quase contracultura, porque a música eletrônica não tem matriz brasileira, como samba, pagode, sertanejo e MPB. Como vi esse processo deles, para mim foi natural seguir o meu também", diz.
Nascido em Goiânia, Alok conta que, até por volta dos 13 anos, era quase nômade. Além da cidade americana conhecida por seus parques temáticos, ele se lembra com detalhes, por exemplo, de quando viveu em Amsterdã, em uma comunidade hippie.
"Meus pais me tiraram da sociedade. Na Holanda, morei em um prédio abandonado que tinha sido um hospital. Depois fui para Alto Paraíso, na Chapada dos Veadeiros. Quando fui inserido na sociedade, em Brasília, tive um choque de realidade e comecei a questionar meus próprios valores, como se aquilo estivesse completamente fora do sistema", lembra o DJ, aos 34 anos.
Talvez a família de Alok estivesse mesmo fora do sistema. Mas hoje ele diz que foi justamente isso que o salvou. Quase dois anos depois de acumular tentativas frustradas de se tornar DJ em Londres, decidiu voltar ao Brasil e pensou em retomar o curso de Relações Internacionais. Mas, então, seus próprios pais reprovaram a ideia.
"Meu pai disse para eu abandonar a faculdade e não desistir de ser DJ. Para mim, era muito complexo continuar vivendo de arte. Eu via meu pai e minha mãe passando muita dificuldade financeira, e não queria aquilo. Mas aí tentei dar mais uma chance, larguei o psytrance, que vinha deles, e foi a melhor coisa que fiz", diz.
Foi nessa época que o DJ começou a se especializar na chamada house music, uma vertente da música eletrônica mais melódica e dançante, com vocais, algo bem diferente do psytrance de seus pais, marcado por batidas mais rápidas e intensas voltadas à atmosfera hipnótica das raves.
A ideia deu certo. Com trabalhos ainda underground, que iam de remixes de Snoop Dogg a Barão Vermelho, ele começou a alcançar audiências na casa dos milhões. Em 2016, lançou a música que levou sua carreira ao patamar que ocupa hoje: Hear Me Now, gravada em parceria com o cantor Zeeba, dono dos vocais da faixa, e o DJ Bruno Martini.
Com quase 1 bilhão de reproduções apenas no Spotify, Hear Me Now se tornou não só um marco na carreira do DJ, mas também da indústria musical brasileira. Dez anos depois do lançamento, continua sendo a faixa brasileira mais tocada no Spotify, a plataforma de streaming musical mais popular do mundo.
O sucesso de Hear Me Now não foi suficiente para garantir estabilidade por muito tempo. O problema, afinal, já não era financeiro, mas emocional. Em depressão, Alok decidiu, após assistir a um vídeo de povos indígenas cantando, visitar a aldeia dos Yawanawá, no Acre, a 2,7 mil km de São Paulo, onde vive o DJ.
Após percorrer o país de avião, carro e barco, o DJ conta que recebeu a bênção de um pajé e foi presenteado com um cocar que, embora não use, em respeito à cultura indígena, guarda em casa como lembrança. "Eu fazia música profissional, ocupava o top dez das paradas, e eles faziam música para curar", diz.
"Aquele momento foi importante para eu quebrar o preconceito de que existe uma cultura mais desenvolvida e de que eles seriam menos desenvolvidos. O que existem são valores e objetivos diferentes. Eu me conectei genuinamente, pela primeira vez, com a natureza."
O resultado desse laço foi o projeto O Futuro É Ancestral, composto por um disco gravado com diferentes etnias, e uma turnê. Além disso, nasceu uma espécie de biblioteca a partir da gravação de centenas de músicas indígenas para ajudar a preservar essa cultura, a pedido das próprias lideranças com as quais o DJ teve contato.
"Muitas coisas eles não escrevem. Eles transmitem através da música, dos cantos, então quis ajudar a criar este grande catálogo para as novas gerações. Eu mostrei uma gravação para um pajé, e ele chorou. Me disse que cantava aquela música à noite todas as noites à beira do rio para não se esquecer dela", lembra Alok.
A conexão com os indígenas levou o artista, que àquela altura já era onipresente nas rádios e na televisão, a fazer suas primeiras manifestações políticas, indo até Brasília e subindo ao palanque contra o marco temporal — a tese de que a demarcação de terras indígenas só pode ocorrer onde estes povos já viviam quando a Constituição de 1988 foi promulgada.
"Os indígenas me disseram: 'Que legal que você está querendo ajudar a salvar nossa música, nossa cultura, mas tem também que salvar quem canta'", lembra Alok, que fez parcerias com Organizações das Nações Unidas (ONU) para iniciativas ligadas ao meio ambiente.
O DJ diz ser contra a ideia, que considera cada vez mais difundida, de que a pauta ambiental pertence apenas a um lado do espectro político. Afirma que busca, como artista, amplificar as vozes dos indígenas; e, como pessoa, reduzir o próprio impacto ambiental — para isso, deixou de ter um jato particular e paga empresas que compensam sua pegada de carbono.
"Colocam todo mundo no mesmo bolo, como se a pauta ambiental fosse só de um lado. Isso é uma grande bobeira", diz.
"Com o negacionismo é difícil conversar. Eu converso, ouço, mas é difícil. O que a gente faz é trazer consciência sobre o assunto, porque, a partir de quando se tem consciência, não é mais um erro, é uma escolha."
Outro assunto que preocupa Alok é o futuro da nova geração, mote de sua nova turnê, Rave the World. Dentro de uma espécie de contêiner de LED com projeções de frases inspiracionais e dançarinos, ele apresenta seu novo set, resgatando sonoridades do início da carreira, inclusive do psytrance.
Conhecido por aparatos tecnológicos superlativos, incluindo canhões de laser que chamam atenção em shows a céu aberto, como o que fez na praia de Copacabana no ano passado, o DJ diz refletir bastante sobre o uso da tecnologia, sem a qual, reconhece, nem sequer seria capaz de exercer sua profissão, mas que, ao mesmo tempo, pode ser perigosa.
Um dos usos que o DJ diz fazer da inteligência artificial (IA) é testar vocais em suas produções, pedindo a um programa que crie vozes inspiradas em determinado cantor ou simplesmente com um timbre feminino ou masculino, antes de convidar um artista para gravar.
"A IA é uma ferramenta maravilhosa e vem para trazer conforto, mas a arte não é só para confortar. É para nos confrontar, fazer refletir", afirma.
"Temos que ter cuidado para não tirar o ser humano da equação. A IA pode ser uma ferramenta, mas não pode ocupar nosso lugar."
Fonte: correiobraziliense
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