Com base nas evidências científicas mais recentes sobre a doença de Alzheimer, a Organização Mundial da Saúde (OMS) atualizou as diretrizes globais de 2019 para a prevenção de uma enfermidade que, hoje, afeta mais de 57 milhões de pessoas. As novas recomendações baseiam-se principalmente na informação de que 45% do risco da mais comum forma de demência pode ser evitado com ajustes no estilo de vida.
Embora não haja cura para a demência, novos estudos mostram que é possível evitar ou retardar as manifestações da doença com adoção de medidas que incluem combate a tabagismo, álcool, inatividade física, isolamento social, poluição do ar, diabetes e hipertensão arterial, entre outros. "Hoje sabemos mais do que nunca sobre os fatores de risco para a demência, e essas diretrizes traduzem esse conhecimento em ação", afirmou Tedros Adhanom Ghebreyesus, diretor-geral da OMS, em Genebra. "Os países agora têm recomendações claras e baseadas em evidências que podem ser colocadas em prática imediatamente para proteger a saúde cognitiva das pessoas."
As diretrizes atualizadas recomendam treinamento e estimulação cognitiva, além de enfatizarem a importância da participação em atividades para adultos ainda sem comprometimento ou com sintomas leves de demência. "A ausência de interação real atrofia conexões neurais e está diretamente associada ao declínio cognitivo", explica a neurocientista Carol Garrafa, CEO da consultoria Santé. "Já a interação social e conversas prazerosas são fatores que beneficiam diretamente o desempenho cognitivo e a linguagem, e há sólidos indícios que funcionam como uma barreira preventiva contra o Alzheimer", diz.
Audição
Uma das novidades nas recomendações da OMS é a oferta de aparelhos auditivos para reduzir os riscos, pois as novas evidências apontam que a surdez é um dos fatores que podem contribuir para o Alzheimer. "A perda auditiva é um dos fatores de risco para demência sobre os quais podemos realmente fazer algo. É fácil de detectar, e os aparelhos auditivos são consagrados, reversíveis e de baixo risco", diz a neurocientista Carolina Ferreira-Atuesta, doutoranda no Hospital Universitário de Zurique, na Suíça. No mês passado, ela apresentou um novo estudo no Congresso da Academia Europeia de Neurologia mostrando que o uso desses dispositivos está associado a risco 23% menor de demência em pessoas com epilepsia e perda auditiva.
Apesar de algumas pesquisas sugerirem que determinados suplementos alimentares podem ajudar a evitar ou postergar a demência, o documento da OMS enfatiza que o uso de vitaminas B e E, ácidos graxos poli-insaturados ômega-3 (PUFA) e multivitaminas/minerais deve ser evitado, a não ser com recomendação do profissional de saúde. Segundo o organismo das Nações Unidas, faltam evidências robustas de que os benefícios potenciais superem efeitos nocivos inesperados.
Segundo a OMS, as diretrizes atualizadas "refletem um crescimento significativo na base de evidências" desde a publicação das primeiras recomendações sobre a redução do risco de demência em 2019. "Elas fornecem recomendações consolidadas sobre como lidar com comportamentos não saudáveis, gerenciar condições médicas e reduzir a exposição a fatores ambientais que podem contribuir para o declínio cognitivo e a demência", destacou um comunicado da instituição.
No lançamento das novas diretrizes, o organismo da ONU ressaltou que a demência "afeta a capacidade de uma pessoa viver de forma independente, trabalhar e realizar suas atividades diárias, além de impor um fardo substancial às famílias e aos cuidadores". Calcula-se que, para a economia global, o impacto da doença seja de US$ 1,3 trilhão anualmente, sendo que metade desse custo se deve aos cuidados não remunerados prestados por familiares e amigos. (Paloma Oliveto)
Novas recomendações
Fonte: Segunda edição das Diretrizes da OMS para Redução do Risco de Declínio Cognitivo e Demência (2026).
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