
É como se o mundo tivesse desaprendido a vergonha. A vergonha de repetir velhos crimes com nova maquiagem, de fingir que não se entende o peso de uma palavra dita no microfone, de ignorar o cheiro de sangue que certas falas ainda carregam. O antissemitismo não voltou — ele só trocou de figurino. Agora aparece bem penteado, com crachá de jornalista ou contrato publicitário de milhões.
Quando até uma âncora da GloboNews ou um popstar decadente como Kanye West se sentem à vontade pra zombar, mentir, atacar judeus em rede aberta, é porque o pacto civilizatório se quebrou. E a rachadura está ficando larga o suficiente pra engolir a decência.
Tenho medo. Não é um medo pessoal, imediato — é um medo moral. Um incômodo fundo, que gruda. Não sou judia, mas sou humana, e isso deveria bastar pra que a dor do outro me atravessasse. Me angustia perceber como o discurso de ódio volta a circular com tanta naturalidade, sem consequência, como se tudo fosse apenas mais uma opinião entre tantas. Um mundo que assiste calado ao retorno dessas ideias, que relativiza o intolerável, está ensaiando sua própria ruína. A história já nos deu esse roteiro. E mesmo assim, seguimos repetindo as falas, como atores cansados de fingir que aprendemos.
Cresci ouvindo que certas coisas não se repetiriam. Que sabíamos demais. Que as cicatrizes bastavam. Hoje, assisto ao ressurgimento do mesmo veneno, disfarçado de liberdade de expressão, viralizando como se fosse entretenimento. O que me desespera não é só o que é dito — é o que não é dito. É o silêncio dos que sabem e escolhem o conforto da omissão. O antissemitismo, hoje, não se esconde. Ele posa pra selfie, ganha curtida, senta à mesa do debate. Não é o retorno do monstro — é a banalização dele. E talvez o mais assustador seja isso: ninguém mais parece assustado.
Fonte: plenonews
Utilizamos cookies próprios e de terceiros para o correto funcionamento e visualização do site pelo utilizador, bem como para a recolha de estatísticas sobre a sua utilização.